Gabeira fez mea-culpa sobre Bolsonaro, mas seu abraço hétero na pilantragem da Lava Jato segue firme

Fernando Gabeira fez uma espécie de mea culpa em sua coluna no Globo:

“Percebo agora como subestimei o perigo que Bolsonaro representava em 2018. Calculava apenas a ameaça à democracia e contava com os clássicos contrapesos institucionais: STF e Congresso, imprensa. Não imaginei que um presidente poderia enfrentar uma tragédia como o coronavírus ou precipitar dramaticamente a tragédia anunciada pelo aquecimento global”.

Sujeito achou que Bolsonaro representava “apenas a ameaça à democracia”.

Só isso.

Puxa-saco de Sergio Moro, Dallagnol et caterva, Gabeira finge não ver que, sem a República de Curitiba, não haveria Jair Bolsonaro presidente.

Escreveu um prefácio do livro de Moro que foi reduzido a pó de traque.

A operação era “um extraordinário trabalho de equipe que conseguiu sobretudo provar com fatos e documentos a inescapável realidade de que a Petrobras foi saqueada e os saqueadores levaram os recursos para fora do país”.

“Eles perceberam que era necessário modificar e fortalecer a lei para que o Brasil não se tornasse presa fácil dos políticos e empresários corruptos. Fizeram uma proposta para acabar com a impunidade no país”, apontou sobre as medidas picaretas de DD.

Uma coisa é preciso dizer: Jair sempre foi coerente em sua delinquencia moral e intelectual.

Quem o normalizou foi gente como Fernando Gabeira.

O sujeito, segundo ele, era “uma forma de virar a mesa. Depois, uma possibilidade de luta contra a corrupção.”

Um dos momentos mais bonitos da sabatina de Bolsonaro na GloboNews se deu quando o então candidato disparou: “Você sabe que sou apaixonado por você, né, Gabeira?”

Ao final, se animou mais: “Vou dar um abraço hétero no Gabeira agora!”

Deu, em espírito, e foi correspondido.

Gabeira erra tudo. Vive num torpor mental e é só sobrevive na Globo por causa do ódio a Lula e ao PT.

Vou repetir o que escrevi aqui sobre o personagem:

Tem um passado na luta armada, sequestrou o embaixador americano Charles Elbrick, vestiu tanga de crochê e hoje é um convertido, alguém que enxergou a luz e abandonou a heresia marxista para ficar ao lado dos cidadãos de bem.

Subiu nos palanques do golpe e posou sorridente com os fascistas do MBL, a quem naturaliza com palavras melífluas.

Em 2017, escreveu que o grupo dos kataguiris, “um movimento que se destacou na oposição ao governo de esquerda, tem uma clara opção liberal”.

Àquela altura, qualquer cidadão medianamente informado — e Gabeira é jornalista — sabia das picaretagens da galera em nome desse liberalismo.

Ele não titubeou em apoiar a intervenção militar no Rio de Janeiro no dia seguinte ao decreto, num artigo que circulou bonito pela hordas bolsonaristas.

“Não tenho o direito de encarar o Exército com os olhos do passado, fixado no espelho retrovisor. Além de seu trabalho, conheci também as pessoas que o realizam”, escreveu, com autoridade auto-outorgada em Haiti.

O mesmo Gabeira que passou pano numa farsa arquitetada pela Globo e por um governo corrupto foi convidado pela BBC a falar de Marielle Franco e se saiu com as mesmas relativizações.

Marielle sabia qual era o foco da operação e nunca hesitou em expôr a farsa. Onde ela era firme e determinada, o ex-deputado é um peixe ensaboado.

“Sua morte é um grande desafio e uma grande agressão a todos nós. Independente de posições politicas”, diz ele.

“Não acredito que tenha sido a intervenção militar que a matou. Mas sua morte poderia ser, potencialmente, uma reação à intervenção federal por parte dos setores da polícia que estão sendo atingidos”.

Que setores estão sendo atingidos??

Gabeira vive num mundo à parte, advogando uma causa que tem na execução de Marielle um símbolo de seu fracasso.

As “posições políticas” que ele desdenha fazem, sim, toda a diferença. Não fossem elas, Marielle provavelmente estaria viva.

Gabeira é o epítome do isentão (“Ninguém pode servir a dois senhores”, Mateus, 6:24).

Marielle tinha lado. O MBL tem lado. Gabeira finge que não tem. E, nesse sentido, é mais nocivo que os bolsonaros que abraça.

O que é isso, companheiro?