Golpe na Bolívia pode prejudicar empresas brasileiras. Por Caique Lima

Evo Morales diante de Jair Bolsonaro na posse. Foto: Reprodução/YouTube

Com a deposição do presidente Evo Morales e a instabilidade política da Bolívia, é de se esperar que esse problema institucional afete a economia do país e dos países vizinhos.

Atualmente, o Brasil é o principal destino de exportações da Bolívia, segundo a OEC (Observatório da Complexidade Econômica). Dados de 2017 mostram que 17% dos produtos exportados pelo país vêm para o Brasil.

O gás natural representa 94% do que é importado da Bolívia, de acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Mas a crise na Bolívia pode atrasar a renegociação de acordo sobre gasoduto.

Apesar das comemorações de Bolsonaro pela queda de Evo, o acordo poderia reduzir o preço do gás natural no Brasil, mas os recentes acontecimentos no país vizinho tiveram o efeito contrário: o fornecimento da YPFB (estatal boliviana que explora e vende petróleo e seus derivados) pode ser afetado, levando à escassez do produto e, com isso, a um aumento de preço.

É um risco remoto, mas existe.

Segundo o economista Osmar Visibelli, que é mestre em ciências sociais e professor e consultor da UAM (Universidade Anhembi Morumbi), “a Bolívia tem uma dependência em relação ao Brasil para o mercado de gás, e o Brasil também é dependente do gás da Bolívia”.

Porém, Visibelli é otimista quanto às soluções do problema. Para ele, se houver uma saída institucional para a crise política boliviana, “não há possibilidade de abalo mais forte entre os países”.

Que foi golpe, parece indiscutível, mas agora o que se discute é a minimização dos danos: Haverá eleições? Evo Morales poderá participar? Ao que tudo indica, os golpistas não aceitam, mas seu partido, o Movimento ao Socialismo (Mas), poderá lançar outro nome.

Para o Brasil, a estabilidade política é importante para manter a rotina de negócios. Com crescimento médio anual em torno de 4,5%, a Bolívia tem se tornado um mercado importante para várias empresas brasileiras.

Em 2019, a Bolívia já importou do Brasil mais de R$1 bilhão em produtos manufaturados (desde barra de ferro ou aço até tecidos de algodão).

Porém, o economista afirma que “toda insegurança institucional afeta a imagem e a possibilidade de atração de investimentos externos para o país. Aumenta a taxa de risco percebida pelo sistema financeiro e pelos exportadores que vendem produtos à Bolívia”.

Para ele, haverá queda no PIB boliviano em virtude das paralisações e dos protestos, mas, por enquanto, nada muito significativo.

“Na verdade, acho que a retirada do Morales tende a criar uma proximidade maior com o bloco formado entre Brasil, Paraguai e a própria Bolívia. No jogo do Cone Sul, quem saiu numa posição ruim foi o próximo governo da Argentina”, acrescenta.

Ele acredita que a recente fala de Fernández sobre o Golpe na Bolívia pode prejudicar os negócios entre o país governado por Añez e a Argentina, que também é dependente do gás boliviano e já sofreu com a exportação do combustível.

Por outro lado, governos de direita no Equador e no Chile estão em dificuldade, e há perspectiva de que, nesses países, assim como na Argentina, os ventos mudem de direção.

Num cenário como este, a Argentina se destacaria.

De qualquer forma, para o mundo dos negócios, o que mais importa é a estabilidade política, seja num governo de direita ou de esquerda, que assegura o cumprimento de acordos.

A Bolívia, na situação em que se encontra, é um ponto de interrogação. Quem faria negócios com o país agora?

 

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