Há um ano, Guedes disse que covid custaria só R$ 5 bi. Já foram R$ 528 bi. Por Leonardo Sakamoto

Paulo Guedes tenta começar o ano dando alguma satisfação ao mercado financeiro, retomando compromisso de desmonte do Banco do Brasil e do Estado – Evaristo Sa/AFP

Publicado originalmente no UOL

POR LEONARDO SAKAMOTO

“Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Por que já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra.”

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A declaração foi dada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista à revista Veja publicada em 13 de março de 2020, ou seja, há exato um ano. O lembrete da efeméride foi do sempre atento Jeff Nascimento.

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Já naquele momento a frase espantou cientistas e médicos pela falta de conexão com a realidade. Tanto pelo valor necessário para enfrentar uma pandemia assassina global quanto pela afirmação de que a Saúde já conta com bastante verba – após a emenda do teto de gastos impedir o aumento do de despesas acima da inflação, o que já era precário ficou ainda mais.

De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, em 2020, a maior parte com o pagamento do auxílio emergencial (R$ 293,11 bilhões). Em 2021, já foram pagos outros R$ 4,3 bilhões.

E estamos longe de um valor final. O Congresso Nacional aprovou R$ 44 bilhões para a renovação do auxílio emergencial, valor que é visto como baixo para garantir um mínimo de qualidade de vida às famílias que estão passando necessidade na segunda onda da covid. Enquanto as mensalidades do benefício foram de R$ 600 e, depois, R$ 300, no ano passado, agora elas serão, em média, de R$ 250 – menos de 40% do total necessário para comprar uma cesta básica com alimentos frescos na capital paulista.

Ou seja, a discrepância entre o chute do ministro (R$ 5 bi) ao que foi gasto até agora (R$ 528,3 bilhões) pode ser comparada ao presidente da República ter chamado a pandemia de “gripezinha” e “resfriadinho” e agora termos 277 mil mortos, com 52 dias seguidos de média móvel de mortes acima de mil.

O ministro gosta de previsões com o número 5. Também em março do ano passado, ele disse que o dólar poderia chegar a R$ 5 “se fizer muita besteira”. Hoje, o dólar está a R$ 5,56.

E diante do risco de manifestações contra o governo, alertou, em novembro de 2019, que ninguém se assustasse com um novo AI-5, ato da ditadura que permitiu fechar o Congresso e descer o cacete geral em 1968.

No dia 26 de janeiro, afirmou que o Brasil pode crescer 5% este ano. Não apresentou dados que comprovassem isso, o que faz dela uma declaração lastreada apenas na força do querer.

“Se deixarmos de lado essa psicologia derrotista, esse descredenciando a democracia, essa vontade de ganhar de qualquer forma o poder político, eu acho que podemos de novo surpreender. O Brasil pode crescer 5%”, disse. “Se trabalharmos em vez de jogarmos pedra um no outro, vamos crescer mais”, completou.

Lembremos que o último a descredenciar a democracia foi um deputado bolsonarista da base do governo que disse que daria uma surra de gato morto na cara de um ministro do STF após o almoço. E que seu chefe, o presidente da República, é quem mais dá pedrada nos brasileiros. E é bom de mira. O resultado disso são os tais 277 mil mortos em muito por conta de sua omissão.

Incorporado ao Ministério da Economia, por pedido de Paulo Guedes, em 2019, a área de Planejamento do governo parece que não está funcionando muito bem.