Jornalista demitido por pergunta a Bolsonaro fala ao DCM: “Não me arrependo. Estava fazendo meu trabalho”

O jornalista desempregado João Renato Jácome, exercendo o ofício (crédito: Odair Leal)

O jornalista João Renato Jácome tem 26 anos e está desempregado, ou vai ficar daqui a um dia ou dois. “Até agora (início da madrugada desta sexta-feira, 26), não saiu minha exoneração em diário oficial. Hoje, fui trabalhar normalmente”, ele diz. Mas ele foi demitido na última quinta, só falta sair a exoneração no jornal, se já não saiu na edição desta sexta, mas foi.

Ele foi demitido publicamente pelo prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom (PP), que disse a jornalistas, na quinta, que o jornalista já tinha sido exonerado na quarta. Foi quando Jácome, trabalhando como freelancer para o jornal Estado de S.Paulo, foi a uma coletiva de imprensa de Jair Bolsonaro (sem partido), então em visita a Rio Branco. Tentou perguntar ao presidente algo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e seus sigilos. O ex-capitão encerrou a entrevista antes que ele terminasse de perguntar.

Por causa disso, assumidamente pelo prefeito por este motivo, por ter tentado fazer aquela pergunta, foi exonerado do cargo que mal ocupou na prefeitura – tinha sido nomeado no dia 19 -, de chefe de gabinete da secretaria de Meio Ambiente.

Jácome é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Acre e cursou até o quarto ano da faculdade de Biologia. Sua experiência de sete anos no jornalismo, desde que tinha 19, é focada na área ambiental. No modelo de plantão e rodízio que foi implantado na secretaria durante a pandemia, ele trabalhou durante o final de semana e estava de folga naquela quarta, quando pegou o frila do Estadão.

Antes disso, já trabalhava para veículos antipetistas. “Comecei minha carreira combatendo o PT”, conta Jácome, referindo-se a seu emprego de repórter no portal AC24Horas, o maior do estado. Ouvindo o que diz Jácome, entende-se que ele nem chega a antipatizar tanto com o presidente Bolsonaro, só achou que podia fazer uma pergunta.

Agora, está desempregado, recebendo ameaças, surpreso e preocupado. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista que o jornalista concedeu ao DCM.

Diário do Centro do Mundo – O que você achou da decisão do prefeito? Te surpreendeu?

João Renato Jácome – Eu fiquei surpreso. Até porque, até agora, não fui oficialmente comunicado disso. Eu estou aguardando que isso seja publicado em diário oficial. Inclusive, hoje eu trabalhei normalmente. Se amanhã (esta sexta, 26) não for publicado, estarei novamente trabalhando. Não estou ali só por política, por relacionamento, mas porque eu tenho uma missão, de ajudar o município de Rio Branco a se desenvolver. Por isso, fiquei muito surpreso, principalmente porque os colegas da imprensa ficaram muito surpresos, e foram eles que me surpreenderam com a notícia.

DCM – Você está arrependido de ter feito aquela pergunta?

JRJ – Na verdade, eu não consegui fazer a pergunta. Eu até fiquei surpreso e constrangido. Na academia, na graduação, a gente aprende a perguntar e a ser educado. E também de casa vem a minha educação. No final da minha tentativa de pergunta, eu agradeci. Então, não me arrependo, eu estava ali cumprindo meu ofício, fazendo o meu trabalho.

Em nenhum momento eu quis expor o presidente, ou criar uma situação constrangedora para ele, como autoridade, como pessoa. Muito pelo contrário, era para esclarecer o sentimento dele, enquanto pai, diante da decisão da Justiça de anular a quebra de sigilo do filho dele. Ele poderia só ter respondido, que foi feito justiça. Mas a justiça para o filho dele se tornou injustiça para a minha família. E a minha família está sofrendo muito, infelizmente.

DCM – Você tem recebido apoios ou ataques em virtude do episódio?

JRJ – Recebi apoio de muitos jornalistas. Todos estão chocados com o que aconteceu. E também recebi ameaças, do tipo “vou te matar, seu desgraçado”, dessas que se faz por redes sociais. Eu e minha família.

DCM – O que pretende fazer agora em termos profissionais? Vai procurar emprego no jornalismo?

JRJ – Procurar, eu vou. Mas diante dessas circunstâncias, muitas portas já se fecharam para mim, infelizmente. Tenho conta para pagar, estou à beira do casamento, tenho minha mãe comigo. Ela está muito abalada. Mas vamos tocar a vida, vamos trabalhar, estou aberto às oportunidades, sem atacar ninguém, sem perseguir ninguém.

DCM – E para o jornal Estado de S.Paulo, continuará realizando trabalhos de freelancer?

JRJ – Se o Estadão me quiser para escrever, estou aqui. Estadão ou quaisquer outros veículos de imprensa que acreditarem no meu profissionalismo, na minha competência e capacidade de bem contar histórias.

Veja, abaixo, algumas reportagens feitas por João Renato Jácome.

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,planejamento-de-governos-locais-para-vacinacao-inclui-drive-thru-e-barco-pesqueiro,70003575753

https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,barrados-450-imigrantes-acampam-sobre-ponte-que-liga-brasil-e-peru-no-interior-do-acre

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