A coletiva de Lula em Brasília e o debate na CNN sobre a terceira via. Por Miguel do Rosário

Lula em coletiva de imprensa
Lula em coletiva de imprensa. Foto: Reprodução

Publicado originalmente no Cafezinho:

Por Miguel do Rosário

Ontem assisti dois vídeos fundamentais para se entender o momento político atual. Se você não assistiu, assista.

O primeiro é a coletiva do ex-presidente Lula concedida há alguns dias em Brasília, e que eu, por indesculpável distração, acabei assistindo apenas ontem à noite.

O outro vídeo é um debate sobre a terceira via na CNN Brasil, ancorado por William Waack, com a participação de três especialistas em pesquisa eleitoral: Andrei Roman, da Atlas Intel; Renato Meirelles, da Locomotiva; e Bruno Soller, do Travessia.

Os links dos vídeos seguem ao final do post.

Comentemos primeiro a coletiva de Lula. Se preferir, pule para a segunda parte do texto.

A primeira coisa que chama atenção é que Lula montou, em torno de si, uma organização de altíssimo nível. Não há nenhum outro candidato de oposição que chegue perto nesse quesito.

Nem Bolsonaro, com toda a sua estrutura presidencial, tem isso. Bolsonaro raramente participa de coletivas de imprensa, e quando o faz, é de maneira atabalhoada, confusa. Os entrevistadores são quase sempre agredidos verbalmente pelo próprio presidente, além de ficarem expostos a agressões físicas de populares, já que o cerimonial de Bolsonaro nunca fez questão de proporcionar a jornalistas um ambiente minimamente seguro, longe dos fanáticos de extrema-direita que cercam o presidente em suas aparições públicas.

Na oposição, a desorganização tem sido a regra. Não há nada parecido com o que vimos na coletiva do ex-presidente.

Lula está afiadíssimo, de bom humor e com uma autoconfiança contagiante.

O ex-presidente conseguiu se sair bem em alguns temas particularmente sensíveis. Exemplo: a relação entre meio ambiente e desenvolvimento. Lula elogiou os produtores rurais, dizendo que eles entendem, mais que ninguém, a importância de oferecer uma imagem positiva, de respeito ao meio ambiente. Lembrou que um dos grandes desafios do Brasil é aprimorar o tratamento do lixo nas cidades. Mencionou, em tom de brincadeira, que é preciso acabar com a história da Amazonia internacional, e ao mesmo tempo que enfatizou que a exploração econômica da região deve ser feita com métodos sustentáveis, como a coleta de substâncias para fabricação de remédios.

“A floresta vale mais de pé”, disse Lula.

Esse é o pulo do gato da Amazônia. A região precisa evitar, ou abolir, atividades extrativas ou agrícolas que destroem árvores e prejudicam o ecossistema.

Perguntado sobre as offshores de Guedes, o ex-presidente deu uma resposta franca, lembrando que a sua experiência judicial lhe deixou “vacinado” contra denúncias e acusações vazias, e que se tornou, mais do que em qualquer outro momento de sua vida, um defensor intransigente do Estado Democrático de Direito e da presunção da inocência. A posição de Lula é um sinalizador importante de que a esquerda brasileira, em função de tudo que o Brasil viveu nos últimos anos, deve assumir uma posição estritamente garantista, evitando derivar para o denuncismo e o udenismo, que fazem mal à democracia e à política.

Essa postura de Lula, certamente muito diferente do sindicalista raivoso e moralista dos anos 80 e 90, famoso por frases como os “300 picaretas” do congresso, e que Brizola ironizava chamando de “udenismo de macacão”, representa um amadurecimento bem vindo.

Este é mais um ponto, além disso, em que Lula se diferencia, para sua vantagem, de alguns de seus adversários. Ciro, por exemplo, parece uma metralhadora giratória em matéria de acusações contra tudo e todos.

O próprio Lula tem sido chamado por Ciro de “maior corruptor da história do Brasil”. E não apenas Lula. Ciro chama qualquer um que não vê como aliado de picareta, ladrão, corrupto. Com isso, ele queima pontes com boa parte da classe política e do empresariado.

Lula mantém a imagem de construtor de pontes e fazedor de amigos, não de inimigos. Na coletiva, Lula enfatizou que Ciro era seu aliado que nunca criticou nem irá criticá-lo. “Você já me viu criticar Ciro Gomes?”, retrucou Lula ao repórter.

A seu jeito, porém, Lula faz sim uma crítica a Ciro, mas sem demonstrar agressividade. É o tapa com luva de pelica do “lulinha paz e amor”. A estratégia de Lula, segundo ele mesmo, será evitar qualquer confronto com o pedetista, e, ao mesmo tempo, expor o passado “lulista” do ex-aliado.

O ex-presidente falou da necessidade de se implementar uma política energética que evite preços altos ao consumidor. Isso seria perfeitamente possível, segundo ele, porque o país é autossuficiente em petróleo.

Na parte econômica, Lula enfatizou que seu governo terá responsabilidade fiscal, e que essa sempre foi uma preocupção de suas administrações. Mas também defendeu o uso da dívida pública para se fazer investimentos produtivos, que gerem renda e empregos ao país.

Lula falou de sua ida às manifestações. Explicou que ainda não participou por causa de sua segurança sanitária pessoal. Não quer se reinfectar pela Covid, nem estimular aglomerações excessivas, e foi aconselhado por seus “ministros da saúde”, referindo-se a caciques petista ou próximos que já exerceram o cargo, a não ir no dia 2 de outubro.

Sobre as vaias a Ciro, o petista lembrou que elas também são democráticas, que ele mesmo já foi vaiado inúmeras vezes.

“Fiz o discurso de criação da CUT sob vaias”, recordou, rindo.

Aproveitou, no entanto, para alfinetar o adversário, perguntando retoricamente se Ciro não havia dito alguma coisa que motivou a plateia a vaiá-lo.

Em toda a entrevista, por outro lado, e apesar da autoconfiança, o petista fez questão de repetir que ainda não decidiu que é candidato, o que é obviamente uma jogada astuta para evitar um “spoiler”. Lula não quer tirar o brilho do momento do anúncio oficial de sua candidatura, que deverá ocorrer no início do ano que vem. Tem noção da importância de “timing” e suspense, para criar um fato político de impacto no momento certo.

Perguntado se irá nos atos do dia 15 de novembro, o ex-presidente disse que ainda não sabe, mas que se decidir participar, será para não sair mais das ruas. Ele lembrou, todavia, que fará em novembro uma viagem a Europa, para encontros políticos com lideranças progressistas na França, Espanha e Alemanha. Na Alemanha, quer se encontrar com lideraças do SPD, o partido social-democrata alemão, que ganhou as eleições este ano e pode fazer o primeiro-ministro. Se as datas coincidirem, ele valorizará a viagem a Europa.

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O debate na CNN

O outro vídeo que eu gostaria de comentar é o debate da CNN sobre a terceira via. É divertido. Os três especialistas estavam levemente constrangidos pela verdade implacável mostrada em suas próprias pesquisas: não há espaço para nomes alternativos.

Roman, do Atlas, admitiu que a estrutura atual do eleitorado torna virtualmente impossível que uma terceira via se consolide a tempo de chegar ao segundo turno. Ele discorreu longamente sobre Ciro Gomes, a quem elogiou como um bom candidato, mas disse que ele tem pouca chance de crescer, em virtude da muralha lulista à esquerda. Roman explicou que, apesar da “campanha brilhante” de João Santana, é muito difícil vender Ciro como alguém palatável ao eleitorado conservador, porque a imagem dele, assim como seu programa, ainda é muito associada à esquerda.

O analista alertou ainda que Ciro Gomes corre um grave risco: como suas oportunidades estão à direita, ele pode se sentir inclinado a fazer uma série de movimentos neste sentido, e, ao cabo, perder a sua base à esquerda, implodindo sua candidatura.

(Opinião do blog: é exatamente isso o que já está acontecendo).

Renato Meirelles, da Locomotiva, vai na mesma linha. Ele diz que o único caminho da terceira via é ter mais votos que Bolsonaro. Ao mesmo tempo, ele não vê o presidente caindo abaixo de 25%, de maneira que a única chance de uma candidatura alternativa seria num cenário sem Bolsonaro, ou seja, num cenário em que o presidente, prevendo a derrota, desista da reeleição.

Bruno Soller, do Travessia, diz que a única brecha aberta à terceira via é pela centro-direita, roubando votos do bolsonarismo, em especial na classe média antipetista.

Meirelles observou que a divisão entre esquerda e direita não faz mais muito sentido para a maioria dos eleitores, até pela confusão mental deles em relação a esses conceitos. Por exemplo, ele mencionou uma de suas pequisas segundo a qual 60% do eleitorado que se autocaracteriza como “direita” defende mais intervenção do Estado. O eleitorado tem se dividido mais por classes sociais – e pela polarização em torno do PT –  do que por ideologia.

Os analistas lembraram que, desde 2006, as famílias de baixa renda tendem a votar em Lula, e a classe média, na oposição ao PT. Foi ocorrendo um movimento de expansão do eleitorado antipetista, a partir da classe média, até que, em 2018, setores expressivos da classe C, sobretudo na periferia das grandes cidades, aderiram também ao antipetismo.

Para 2022, os analistas observam que há um retorno dessa classe C na direção de Lula. A maioria da classe média, todavia, ainda é antipetista.

Os três destacaram que o público nem-nem, ou seja, nem Lula nem Bolsonaro, representa cerca de um terço do eleitorado. Entretanto, é um setor profundamente rachado. O eleitor do Ciro não vota num candidato do PSDB, e o eleitor do PSDB não vota no Ciro. Há também o eleitor desiludido, que tende a não votar em ninguém, ou que dificilmente se empolgará com qualquer uma das candidaturas da terceira via.

Conclusão

Se eu fosse forçado a fazer uma aposta na tendência dos próximos meses, diria que a candidatura de Lula ainda pode crescer. O percentual talvez se mantenha estável, ou mesmo oscilar um pouco para baixo, porque seus números estão muito altos, mas ganhará mais densidade (o que é um conceito subjetivo, de uma candidatura mais sólida, com eleitores mais fieis), em virtude da maior exposição midiática e da empolgação crescente de militantes e influencers que o apoiam.

Se os especialistas entrevistados pela CNN estiverem certos, a terceira via é praticamente carta fora do baralho. A polarização, por conseguinte, se radicalizará ainda mais.

O principal beneficiado desse aumento da polarização, porém, não será Bolsonaro, porque é ele quem mais pode perder eleitores para alguns nomes de direita, como Sergio Moro. Os analistas do debate na CNN disseram que mais da metade dos eleitores de Bolsonaro votariam no ex-ministro da Justiça.

Ciro, por outro lado, está inteiramente bloqueado por Lula, com pouca chance de crescer.

Esses fatores fazem com que os indecisos, os desgarrados de Bolsonaro e os eleitores de Ciro desiludidos com sua “guinada à direita” sejam atraídos para a órbita lulista.

Com uma polarização tão acentuada, o primeiro turno ganha ares de segundo turno, e a eleição pode ser resolvida no dia 2 de outubro.

A coletiva de imprensa de Lula

O debate da CNN