
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu nesta terça-feira (21), em Hannover, à decisão do governo dos Estados Unidos de determinar a saída do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava em Miami e participou da cooperação que levou à prisão do golpista Alexandre Ramagem, ex-deputado federal e ex-chefe da Abin.
Ao comentar o caso, Lula afirmou que o Brasil poderá responder com reciprocidade caso fique comprovado abuso por parte das autoridades estadunidenses. “Fui informado hoje de manhã, acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil”, disse o presidente na porta do hotel onde está hospedado na Alemanha.
Segundo ele, o país não pode admitir “essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas pessoas americanas querem ter com relação ao Brasil”.
O presidente Lula falou sobre o agente da Polícia Federal, ligado à prisão de Ramagem, que foi acusado de ter manipulado o sistema de imigração dos EUA: ” Acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial nós vamos fazer reciprocidade com o deles no Brasil. (…)… pic.twitter.com/U8i72XB4XT
— GloboNews (@GloboNews) April 21, 2026
A reação ocorreu poucas horas após o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo dos Estados Unidos publicar uma nota dizendo que uma autoridade brasileira teria tentado “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” em território estadunidense.
O comunicado conclui: “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”.
Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso. https://t.co/kNMWSchGcL
— Embaixada EUA Brasil (@EmbaixadaEUA) April 20, 2026
A autoridade citada é Marcelo Ivo de Carvalho, delegado da PF destacado para atuar junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE.
Carvalho foi nomeado para a missão em Miami em março de 2023, com a função de colaborar na localização e prisão de foragidos da Justiça brasileira, e teve sua permanência prorrogada até agosto deste ano. A PF, no entanto, afirma que não foi formalmente comunicada sobre a medida adotada por Washington.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também contestou a versão divulgada pelos Estados Unidos. “Essa notícia não tem fundamento. Estamos aguardando esclarecimentos das autoridades americanas”, afirmou. Vieira ressaltou que o delegado brasileiro atuava em cooperação com as próprias autoridades estadunidenses em Miami e que “todos sabiam” dessa função.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, reforçou que Carvalho está há mais de dois anos nos Estados Unidos desempenhando esse trabalho de ligação institucional.

Quem é Marcelo Ivo de Carvalho
Marcelo Ivo atuava como oficial de ligação do ICE desde agosto de 2023. Em nota, o Departamento de Estado afirmou que ele teria tentado “manipular” o sistema de imigração, “contornar pedidos formais de extradição” e “estender perseguições políticas” em território norte-americano.
A medida ocorre no contexto do caso envolvendo o ex-deputado Alexandre Ramagem, cuja prisão nos EUA contou com atuação direta de Marcelo Ivo. A Polícia Federal havia informado que a detenção foi resultado de cooperação internacional, já que Ramagem é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado.
Com mais de duas décadas na corporação, Marcelo Ivo ocupava um dos postos mais estratégicos da PF no exterior, sendo o único delegado brasileiro lotado dentro das instalações do ICE, em Miami. No cargo, era responsável por articular investigações e ações conjuntas na área de segurança e imigração entre Brasil e Estados Unidos.
Ao longo da carreira, passou por funções relevantes, como a superintendência da PF na Paraíba e a chefia da delegacia no Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde atuou em operações contra o tráfico internacional de drogas. Entre elas, a Operação Carga Extra, que resultou em prisões e apreensão de grande quantidade de cocaína destinada à Europa.
Em outubro de 2016, também se envolveu em um acidente na rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, que resultou na morte de um motociclista. Na ocasião, foi indiciado por homicídio culposo sob influência de álcool, mas acabou absolvido pela Justiça em 2020 por falta de provas.