Militar recebido por Bolsonaro implantou estado de terror no Araguaia e não poupou nem seus soldados

Bolsonaro recebe o grande amigo Curió no Palácio do Planalto (Imagem: reprodução Instagram)

Bolsonaro recebeu nesta segunda, 4, fora da agenda oficial, o tenente-coronel reformado do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura.

Curió, de 85 anos, virou um ícone da violência durante a ditadura, que vigorou no país entre 1964 e 1985.

Denunciado seis vezes pelo MPF por participação nos assassinatos e sequestros de guerrilheiros de esquerda na região do Araguaia nos anos 70, ajudou a escrever um dos capítulos mais sombrios da história recente do país, transformando o espaço de luta de dezenas de sonhadores militantes do PCdoB que combatiam o regime de exceção num dos laboratórios de experiências humanas mais perversas que existiu.

O jornalista Eduardo Reina contou aqui no DCM como funcionou o estado de terror implantado sob o comando do oficial que Bolsonaro prestigia e saúda como um amigo.

A guerrilha do Araguaia foi um laboratório de experiências humanas mais perversas que existiu. Foi puro terror. Terror de Estado, baseado em uma doutrina de segurança nacional que tinha como objetivo destruir, exterminar através de técnicas de guerra algumas dezenas de sonhadores militantes do PCdoB que combatiam o regime de exceção implantado pelos militares em 1964.

O filme “Soldados do Araguaia”, que estreia no dia 22 de março nos cinemas em São Paulo, conta uma faceta dessa perversidade. O diretor do filme, Belisário Franca, revela que ficou impressionado com a força do Exército em manter silêncio por tantos anos sobre a violência contra os cidadãos, militantes políticos, habitantes da região e próprios soldados. “Essas histórias estavam escondidas”, diz.

Helicóptero usado pelo Exército no Araguaia

Esses militares foram marginalizados em todos os sentidos. Pela historiografia oficial, pelo próprio Exército e pela comunidade onde habitam. Agora, esses homens vítimas da guerra escondida, tiveram coragem de denunciar o que sofreram. Conseguiram ultrapassar a barreira psicológica da timidez e do medo.

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Esses ex-integrantes do Exército que foram obrigados a atuar contra os militantes do PCdoB e contra o seu próprio povo durante a repressão à guerrilha estavam totalmente esquecidos. Suas histórias ficaram invisibilizadas com o tempo.

“Tive contato com essas histórias que foram levantadas pelo jornalista Ismael Machado. Ele publicou parte dos casos num diário paraense e achei que seria necessário contar tudo”, explica Franca.

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Quando serviram o Exército no início da década de 1970, contam os ex-soldados, ingressar no serviço militar era algo digno, que todos queriam. Muitos entravam para poder receber o certificado de reservista. Mas quando entraram no quartel foram surpreendidos com tamanha brutalidade.

Da região de Marabá, por exemplo, eram todos filhos de camponeses ou de moradores da pacata cidade. Dos cerca de 60 que se alistaram em 1973, todos com 18 anos de idade, só dois tinham cursado o ginásio (atual ensino fundamental II). O restante era pessoal da roça, da lavoura, que cortava castanha no meio do mato. Todos muito simples, sem vivência social e isolados do mundo.

Com 15 dias dentro do quartel e sem saber lidar com armas de fogo foram obrigados a participar de grupos de combate para caçar os guerrilheiros no meio da floresta Amazônica. “Não me orgulho disso não”, repete o soldado Josean.

“A gente acordava de madrugada com eles jogando bomba debaixo das barracas da gente”, diz outro soldado. Mas respirar gás lacrimogênio era o menor suplício a que tiveram que passar.

Eram amarrados, nus, em estacas e cobertos com água com açúcar. Formigas, marimbondos e outros bichos os atacavam impiedosamente. Foram obrigados a beber sangue de boi coagulado depois de permanecerem dois dias sem alimentação.

Para suportar os treinamentos e não ter dó do que iriam enfrentar, os próprios soldados passavam por sessões de tortura no quartel. Eram colocados no pau de arara. O soldado Fonseca relata que perdeu um testículo de tanto apanhar no pau de arara, que era chamado pelos militares de “pau do capitão”. Fonseca chora ao lembrar dessa tortura a que foi submetido e que ficou silenciado por mais de 40 anos.

Sem preparo físico ou emocional foram submetidos a muita violência. Depois acabaram descartados, sem direitos ou possibilidade de tratamento psicológico para o que sofreram em campo dentro da selva. Tampouco tiveram perspectivas de receber alguma reparação pelos danos sofridos.

Foram obrigados a combater um inimigo que desconheciam. Aliás, sabiam quem eram os chamados guerrilheiros. E por eles tinham algum respeito, pois a população local recebia ajuda dos militantes em todos os sentidos. Ajuda essa que o poder público não dava.

Finda a guerra, os soldados do Araguaia foram abandonados à própria sorte. Ficaram desajustados com a sociedade em que habitam. “Essa guerra, para a gente, era isso. Ou matar ou morrer. Nos colocaram numa situação de risco. Eles queriam resolve o problema lá”, descreve o soldado Ribamar.

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Em 1975, quando todos os focos de resistências dos militantes políticos no Araguaia haviam sido dizimados, o Exército dispensou os soldados. “Simplesmente colocaram a gente em forma e disseram que acabou. Devolveram a gente para nossa família sem direito a nada. Quando voltei, meus amigos de fora era tudo inimigo”.

“Tenho medo até hoje de andar na rua. Não se sabe a reação das pessoas”, diz o soldado Goes.

“Tenho pesadelos horríveis todo dia. Acordo sufocado. Bati na minha mulher, dormindo. Estava sonhando que brigava com o Osvaldão (guerrilheiro líder no Araguaia)”, revela Goes.

E a violência do Estado assumia graus tão refinados de crueldade que um soldado contou ter sido obrigado a presenciar a tortura do próprio pai. E que após esse episódio nunca mais foi o mesmo homem.

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A lei do silêncio impera no Araguaia. Filhos de lavradores têm medo de contar o que sabem. O maior temor deles é se encontrar com o coronel Sebastião Curió, que atuou na repressão aos militantes políticos na região na década de 1970.

Curió disse uma vez que o objetivo é manter o máximo de segredo possível. Ele disse a jornalista certa vez que uma parte das Forças Armadas estava com ele, em silêncio. Afirmou com todas as letras que tem um pacto com algumas pessoas para matar quem contar alguma coisa. E aceita ser morto de ele próprio contar alguma coisa sobre a repressão das Forças Armadas no Araguaia.

Pelo menos duas pessoas já perderam a vida depois de contar versões sobre a repressão à guerrilha. Em 2011, Raimundo Clarindo do Nascimento, o Cacaúba, foi assassinado em Serra Pelada, no Pará, distrito da cidade de Curionópolis; município do qual Curió já foi prefeito.

Cacaúba revelou algozes de vários guerrilheiros e codinomes de agentes da repressão. Acabou assassinado. Passados sete anos, a polícia não descobriu quem é o autor do crime. Ele foi um mateiro que trabalhou para o Exército, ajudando na captura de militantes.

Valdim Pereira de Souza, ex-militar e motorista de Curió à época, disse em depoimento ao Ministério Público que participou da retirada de corpos e ossadas de guerrilheiros e camponeses mortos em várias localidades da região. Por causa dessas denúncias, Souza foi ameaçado, assim como vários moradores das cidades da região do Araguaia onde se desenvolveu a repressão à guerrilha. O ex-militar recebeu telefonemas com ameaças, dizendo para calar a boca e não se meter em encrenca.

Outro militar que participou da caça aos militantes políticos, o tenente José Vargas Jimenez, também pagou com a própria vida a “ousadia” de contar parte da história da guerrilha do Araguaia em que foi protagonista. Autor de dois livros com inúmeras denúncias – Bacaba e Bacaba II – Jimenez, que atuou sob o codinome de Chico Dólar, foi encontrado morto com dois tiros no peito em setembro de 2017 na sala de sua residência, em Campo Grande (MS).

O Exército continuou a exercer forte pressão junto aos moradores locais no sul do Pará. Essa ação de repressão foi denominada “Operação Anjos da Guarda”, para monitoramento aos ex-colaboradores do Exército no Araguaia. Na cidade de Marabá era mantido um escritório que se passava como centro de elaboração e distribuição de notícias. Seria uma falsa agência de notícias.

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O sigilo com que o Exército protegeu suas operações no Araguaia tinha o propósito de negar aos adversários do regime “o reconhecimento de que efetivos das forças armadas estavam sendo empregados num problema de defesa interna dessa natureza”.

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