Mourão, a terceirização da culpa e a lição perdida de Néstor Kircher sobre como tratar militares. Por Kiko Nogueira

Hamílton Mourão para um reboco no rostinho

O general Hamilton Mourão resolveu dar uma dura na democracia brasileira em artigo no Estadão.

Alinhado a Bolsonaro, ensinou com a imprensa deve proceder: “a grande instituição da opinião precisa rever seus procedimentos nesta calamidade que vivemos.”

Cobrou “governadores, magistrados e legisladores que esquecem que o Brasil não é uma confederação”.

Lamentou o “prejuízo à imagem do Brasil no exterior decorrente das manifestações de personalidades que, tendo exercido funções de relevância em administrações anteriores, por se sentirem desprestigiados ou simplesmente inconformados com o governo democraticamente eleito em outubro de 2018, usam seu prestígio para fazer apressadas ilações”.

O vice responsabiliza, enfim, toda a República pela catástrofe nacional derivada da pandemia, menos o presidente. 

Os militares brasileiros, Mourão à frente, apoiam Bolsonaro pela única razão de que ele os trouxe de volta ao poder, dando-lhes cargos, prestígio, mamata.

As ameaças que fazem, algumas mais veladas que outras, vêm da leniência histórica com que foram tratados desde o fim da ditadura.

O fato de Toffoli chamar o golpe de 64 de “movimento” não impedirá que ele seja atropelado se necessário. “Tudo tem sua hora”, disse Heleno, no Twitter, sobre Celso de Mello.

Em 2018, Miguel Enriquez escreveu no DCM sobre a lição de Néstor Kirchner na Argentina que não foi seguida por nós:

A conciliação à brasileira, que jogou para debaixo do tapete toda tentativa de revisar a lei de Anistia e penalizar os carrascos, contou com a conivência do Judiciário, do Congresso e de todos presidentes que se sucederam desde 1985. Em nome da prudência, para não melindrar os militares, optou-se pelo silêncio.

Situação bem diferente do que ocorreu na vizinha Argentina.

Desde a queda da ditadura militar, em1983, seus crimes foram cobrados publicamente. Mesmo as tentativas de beneficiar os criminosos, que durante algum tempo prevaleceram, acabaram na lata do lixo da história.

Foram decisivas, no caso argentino, a firmeza e a coragem política de dois de seus presidentes pós-ditadura.

O primeiro foi Raul Alfonsin, do Partido Radical, que revogou uma auto anistia promulgada pelos militares nos estertores do regime, o que permitiu a condenação e encarceramento de dezenas de integrantes das forças armadas e policiais, incluindo ex-chefes de governo.

O segundo foi o peronista Néstor Kirchner, que ao assumir o poder, em 2003, anulou um indulto concedido em 1990 por um de seus antecessores, o também peronista Carlos Menem.

Kirchner, da ala esquerda do Partido Justicialista, fundado pelo general Juan Domingo Perón, foi além. Publicamente, pelo menos em duas oportunidades enquadrou os militares, reafirmando seu repúdio ao arbítrio e compromisso com a democracia.

A mais sensacional dessas manifestações foi seu pronunciamento à tropa e ao oficialato do Exército, reunidos no Colégio Militar, em Buenos Aires, no dia 29 de novembro de 2006 (vídeos abaixo).

Com voz firme, do alto de uma tribuna, Kirchner encarou o mar de homens fardados e armados à sua frente:

“Quero que fique claro que, como presidente da nação argentina, não tenho medo, nem os temo. Só queremos o Exército de San Martin, Belgrano  e Sávio e não daqueles que assassinaram nossos próprios irmãos, que foram Videla, Galtieri, Viola e Bignone. Há um novo país. Necessitamos de soldados comprometidos com a pátria.

E como presidente da nação argentina, venho reivindicar um Exército Nacional, comprometido com o país e distanciado definitivamente do terrorismo de estado.

Senhores oficiais e suboficiais: lhes peço fortemente que definitivamente incorporem esse conceito e essa filosofia à construção da pátria que nós argentinos necessitamos.”

Dois anos antes, no mesmo Colégio Militar, ao deparar com as fotografias dos ditadores Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone na galeria de ex-diretores da instituição, Kirchner ordenou ao comandante do exército Roberto Bendini que as retirasse da parede. “Proceda”, disse.

Obediente, o próprio Bendini baixou as fotos.

Pelo que consta, até hoje nenhum saudoso da ditadura de Videla e companhia ousou colocar as manguinhas de fora na Argentina.

Muito menos apareceram cavalgaduras puro sangue candidatando-se à presidência da República.

 

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