Mulheres que organizam ato contra Bolsonaro são ameaçadas. Por Maurício Silva

Emblema da manifestação das mulheres contra Bolsonaro

POR MAURÍCIO SILVA, do Rio de Janeiro

Retaliações e perseguições no trabalho, agressões verbais e físicas. As mulheres que discordam das ideias ou participam da organização do ato contra o candidato Bolsonaro estão diariamente sujeitas a todo o tipo de ameaças no Rio de Janeiro.

Durante a apuração da reportagem sobre o ato Mulheres contra Bolsonaro, que será realizado neste sábado no centro do Rio, algumas pediram para que seus nomes fossem trocados parcialmente, substituídos na íntegra ou que alguns dados fossem omitidos.

O objetivo é dificultar ou impedir sua identificação não apenas nas redes sociais, mas também em ambientes de trabalho –empresas, repartições públicas e universidades.

Solange* (nome fictício), profissional da área de saúde, pediu que as informações a respeito da sua atuação como ativista fossem omitidas.

“Embora eu cumpra todas as obrigações no órgão público no qual eu trabalho, na situação atual é fundamental eu me proteger de perseguições e injustiças dentro daquele ambiente”, diz.

A preocupação em relação a retaliações e ameaças vêm aumentando desde que o grupo Mulheres Unidas contra Bolsonaro no Facebook sofreu um ataque digital e foi invadido.

Dias depois, a tensão subiu ainda mais: a ativista Maria Tuca Santiago, filiada ao PSOL e uma das organizadoras da página, foi agredida com socos e coronhadas por três homens armados na Ilha do Governador.

Os abusos, ameaças e agressões, intensificados neste período eleitoral, são uma demonstração do que acontece na rotina diária de milhares de mulheres brasileiras.

E é justamente para transformar essa situação que muitas delas vem trabalhando em redes, organizações e coletivos feministas e se reuniram em um grande grupo que organiza o ato contra Bolsonaro este sábado na cidade.

Muitas delas consideram importante compartilhar suas trajetórias de luta contra o machismo e expor os porquês de se manifestarem contra Bolsonaro. Conheça algumas dessas histórias abaixo:

Thyara Chaiene, 33, é uma microempreendedora que já participou de várias causas. Fez trabalho voluntário com crianças em orfanatos, idosos e moradores de rua. Há alguns anos vem atuando também como ativista da causa animal. Ela conta que participou do resgate dos beagles do Instituto Royal, caso famoso dentro da causa. Na organização do evento contra Bolsonaro, ela direcionou sua contribuição a algumas atividades como confecção de cartazes, a distribuição de camisetas e a redação do manifesto, entre outras.

“Estou participando do evento porque sou mulher, espírita umbandista, casada com um homem negro, tenho uma irmã lésbica e amigos LGBTIs. Sou feminista, ativista da causa animal e minhas afilhadas que amo de paixão são mulheres. Tudo o que o Bolsonaro prega e acredita vai totalmente contra os meus valores, crenças e conceitos. Ser mulher não é fácil. Estamos lutando por um mundo mais justo para nós. Lutando por igualdade de salários, por distribuição do poder, por coisas que os homens nunca tiveram que lutar. Os direitos têm que ser iguais acima de tudo”, afirma.

Vanessa Silva, 38, é advogada e perita judicial. Atualmente faz parte da ONG Tamo Juntas e do Movimento da Mulher Advogada. Engajada em causas sociais, já participou de manifestações organizadas por mulheres anteriormente.

Ela conta que a colaboração na organização do ato contra Bolsonaro foi algo que ocorreu de forma espontânea e por acreditar que “o candidato do PSL não é a melhor opção para governar o país – e não só por ser machista, racista e homofóbico”. Ela entende que Bolsonaro não demonstra ter uma base sólida para governar, além de defender medidas como a liberação do porte de arma e a redução da maioridade penal.

“Nós, mulheres, precisamos mostrar que deixamos de ser objeto e passamos a ser sujeito, que exigimos o mesmo respeito dado aos homens. Ninguém nos empodera, nós fazemos isso por nós mesmas, pontua.

Palmira da Costa, 35, historiadora, é da periferia do Estado do Rio de Janeiro. Ela relata que a vida na periferia e o ingresso em uma universidade federal a levaram a ter um olhar atento à história, à política e à memória do país.

É militante da causa feminista e afirma que participou de todos os atos políticos e manifestações dos últimos cinco anos. Palmira acredita que no momento em que a presidenta Dilma sofreu o golpe, uma chave virou em muitas mulheres.

Na organização do ato contra Bolsonaro, direcionou sua colaboração para a área estrutural da manifestação. Ela relata que a construção de um ato como esse envolve muito trabalho e dedicação de todas as envolvidas.

“Nós somos a maioria no país e somos sempre apagadas nos lugares de poder. Somos a maioria como população, mas somos a minoria nos cargos públicos e cargos de chefia. Nosso país apresenta um dos níveis mais altos de feminicídio do mundo. Só por isto as mulheres já precisam se unir, todas as mulheres”, declara.

“Apesar de ver que quem se une mesmo são as mulheres pretas, periféricas e nordestinas, estamos aqui para receber todas as mulheres e conseguir aumentar esse número. Bolsonaro representa tudo que a mulher sofre e é violentada no país.”

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!