‘Não vamos aceitar’, diz Fernández sobre motim policial e cerco à residência oficial

Publicado originalmente no Opera Mundi

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, fez um pronunciamento na noite desta quarta-feira (09/09) em que pediu os policiais da província de Buenos Aires em greve “reflitam e cessem o quanto antes” o movimento, que culminou com um cerco à Quinta de Olivos, a residência oficial do país.

O mandatário também disse que não irá aceitar esse tipo de manifestação e que a democracia é o “único caminho”.

“Posso entender qualquer reclamação e demanda. O que não estou disposto a aceitar são certas formas”, afirmou. “Porque essas formas não tem a ver com a forma democrática, não tem a ver com a institucionalidade, os moradores bonaerenses não merecem isso. (…) Sou sensível às reclamações da polícia. Não sou inocente, é preciso encontrar uma solução. Vamos buscar encontrar, mas não vamos aceitar que continuem com esse tipo de protestos. Peço que interrompam esta atitude”, afirmou.

O pronunciamento foi feito de dentro da Quinta e com a presença de prefeitos de oposição e situação da província bonaerense, em uma demonstração de força política.

Fernández reconheceu os problemas salariais dos policiais e, apresentando um quadro comparativo entre a capital do país e a província de Buenos Aires, anunciou que recursos que seriam destinados para a cidade serão usados para dar aumento aos policiais da província. A capital é cercada pela província, mas são duas unidades federativas diferentes.

Democracia

Com a temperatura política alta, Fernández agradeceu o apoio. “Sim, a presença de efetivos armados rodeando a quinta presidencial gera intranquilidade em muita gente. A todos aqueles que quiseram vir me acompanhar, agradeço, de coração.”

Líderes sindicais chegaram a iniciar uma mobilização em defesa da democracia no país. Um deles foi Juan Grabois, diretor da Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), que havia iniciado a organização de uma marcha a Olivos.

“Por pedido expresso das autoridades máximas, suspendemos a convocatória de hoje às 20h. Esperamos que as armas e os veículos do governo constitucional argentino não sejam usadas para desafiar a democracia”, escreveu Grabois.

O cerco dos policiais à Quinta de Olivos gerou temores de golpismo, em que pese o fato de que diversas organizações políticas e sindicais, de direita e esquerda, rechaçaram a atitude dos manifestantes e defenderam a democracia no país.

Até o prefeito da capital Buenos Aires, Horacio Larreta, do partido do ex-presidente Mauricio Macri, disse ser inadmissível a presença dos policiais em Olivos. “Não é a forma, nem o lugar. É inadmissível a presença de efetivos da polícia da província de Buenos Aires na Quinta Presidencial de Olivos. A reclamação salarial deve ser canalizada no âmbito a que corresponde. O diálogo é o caminho”, disse.

Os temores se baseiam em três pontos. O primeiro: a administração das polícias não são responsabilidade do governo federal argentino e sim dos governos estaduais. Aliás, esta greve envolve apenas os policiais da província, que respondem ao governador Axel Kicillof (kirchnerista).

O segundo ponto é que líderes da greve haviam admitido, na tarde de terça-feira (08/09), que o governador Kicillof havia aceitado a parte mais importante das reivindicações e prometido um aumento escalonado a partir de outubro, mas disseram que não o aceitariam, o que levou à reação no dia seguinte, contra uma instância que não está diretamente ligada à polícia.

Mas o terceiro aspecto, mais complexo, está no passado recente. A greve dos policiais de Buenos Aires traz a recordação de um episódio recente na América Latina: o golpe de Estado de novembro de 2019 na Bolívia, que começou com uma greve de policiais e terminou com os militares obrigando o presidente Evo Morales a renunciar, e impondo a senadora Jeanine Áñez no poder, para um suposto mandato tampão, mas que se mantém até hoje, depois de adiar as novas eleições três vezes.

Ainda nesta quarta, um coquetel molotov foi atirado contra a residência de Fernández. O autor do atentado já está preso e se investiga seus vínculos políticos e sua possível ligação com a greve dos policiais.

Há duas semanas, o ex-presidente argentino Eduardo Duhalde (peronista de direita) deu uma entrevista em um programa de televisão aludindo à possibilidade de um golpe militar contra o presidente Alberto Fernández.

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