Netanyahu é derrotado em Israel e perde maioria no Parlamento

Atualizado em 29 de outubro de 2026 às 20:33
Benjamin Netanyahu
O primeiro ministro israelense e líder do Likud, Benjamin Netanyahu. Foto: Ronen Zvulun/Reuters

Benjamin Netanyahu saiu derrotado das eleições legislativas de Israel: seu bloco perdeu a maioria e ficou com 53 das 120 cadeiras da Knesset, oito abaixo das 61 necessárias para governar. A contagem concluída nesta quinta-feira (29) deixou o campo de Gadi Eisenkot com 48 assentos e os partidos árabes com 19. As informações são da Reuters e da Associated Press.

O Likud, partido de Netanyahu, continua sendo a maior bancada, com 27 deputados, mas encolheu em relação aos 32 eleitos em 2022. A coalizão que começou aquela legislatura com 64 cadeiras também perdeu a capacidade de formar governo sozinha. O Yashar, de Eisenkot, ficou com 21.

O resultado enfraquece o premiê, mas não determina sua saída imediata. Netanyahu permanece à frente de um governo interino enquanto os partidos negociam uma nova maioria. A oficialização dos números está prevista para 4 de novembro.

cadeiras Israel
Foto: Arte/DCM

Partidos árabes ganham força, mas enfrentam veto político

A Lista Conjunta conquistou 11 cadeiras, e o Ra’am, oito. Juntas, as duas legendas chegaram a uma representação recorde de 19 deputados, ante dez na legislatura anterior. Elas estão fora dos dois principais blocos, mas seus votos podem permitir que os adversários de Netanyahu cheguem a 67 assentos, acima da maioria exigida.

Essas siglas representam principalmente cidadãos palestinos de Israel. A minoria árabe corresponde a cerca de um quinto da população do país. Os eleitores com cidadania israelense participam da escolha do Parlamento; essa condição é diferente da dos palestinos sem essa cidadania que vivem em Gaza e na Cisjordânia ocupada.

A negociação esbarra nos vetos feitos durante a campanha por líderes da oposição à participação árabe no governo. Eisenkot havia descartado uma coalizão com essas siglas. Os Democratas, de Yair Golan, são a força do bloco que defende publicamente sua inclusão, segundo a Reuters.

Há também diferenças entre as próprias legendas árabes. O líder da Lista Conjunta, Yousef Jabareen, disse à Reuters que não integraria um governo que apoiasse a campanha militar em Gaza, mas admitiu sustentá-lo de fora. Mansour Abbas, do Ra’am, manifestou disposição de participar de um gabinete liderado por Eisenkot. Entre as demandas árabes estão segurança nas comunidades, financiamento público, igualdade de direitos e retomada de negociações sobre um Estado palestino.

Diante do avanço dessas bancadas, Netanyahu e o Likud passaram a acusá-las de fraude, sem apresentar provas públicas. O comitê eleitoral informou que não há fundamento para alegações de comprometimento sistemático da integridade da votação. Suspeitas específicas foram encaminhadas ao Shin Bet, o serviço de segurança interna, para investigação.

Extrema direita mantém espaço e agenda contra os palestinos

O Poder Judeu, de Itamar Ben-Gvir, obteve sete cadeiras, e a aliança Sionismo Religioso–Zehut, liderada por Bezalel Smotrich, seis. As 13 estão incluídas nas 53 do bloco governista. Na comparação com as 14 obtidas pela lista conjunta dessas forças em 2022, houve perda de um assento.

A força dessas correntes aparece também na incorporação de suas propostas ao governo. Ben-Gvir e Smotrich defendem a anexação de terras palestinas ocupadas e a expansão dos assentamentos. Smotrich tem trabalhado para inviabilizar a criação de um Estado palestino, enquanto seus aliados pressionam pela permanência do controle israelense sobre esses territórios.

Em junho de 2025, Reino Unido, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Noruega anunciaram sanções e outras medidas contra os dois ministros por incitação à violência contra palestinos na Cisjordânia. Na declaração conjunta, os governos denunciaram discursos favoráveis ao deslocamento forçado e a novos assentamentos, além de abusos graves de direitos humanos.

Mesmo depois do revés eleitoral, Netanyahu sinalizou que pretende conservar esses parceiros. Segundo o Times of Israel, que citou a emissora Canal 14, o premiê disse a Ben-Gvir e Smotrich que o bloco permaneceria unido. Uma eventual aliança com partidos da oposição exigiria renegociar compromissos que sustentaram seu governo.

Benjamin Netanyahu Itamar Ben-Gvir
O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e o Ministro da Segurança Nacional de Israel Itamar Ben-Gvir. Foto: Oren Ben Hakoon/Reuters

Para os 2,1 milhões de habitantes de Gaza, mudança segue incerta

A disputa pelo próximo governo ocorre enquanto cerca de 2,1 milhões de palestinos vivem em Gaza sob uma crise humanitária prolongada. Em seu informe de 22 de outubro, o escritório humanitário da ONU, o Ocha, descreveu famílias em tendas deterioradas, falta de água e medicamentos e a continuidade de ataques com vítimas civis.

A agência também alertou que a escassez de recursos reduziria a assistência alimentar mensal a menos de um milhão de pessoas a partir de outubro. O quadro se soma à conclusão de uma comissão da ONU de que Israel manteve atos de genocídio após o cessar-fogo. O governo israelense rejeitou essa conclusão.

A derrota da maioria governista tampouco significa que a principal alternativa esteja comprometida com a soberania palestina. Eisenkot, ex-chefe das Forças Armadas, também rejeita a criação de um Estado palestino independente e defende que Israel mantenha a responsabilidade militar sobre a segurança entre o rio Jordão e o Mediterrâneo.

Há diferenças relevantes em relação a Netanyahu: Eisenkot promete combater a violência de colonos, retirar postos de assentamento não autorizados e barrar o projeto E1, que fragmentaria a Cisjordânia. Os Democratas apoiam uma solução de dois Estados. A composição final da coalizão determinará o espaço dessas posições no próximo governo.

Depois da publicação oficial do resultado, o presidente Isaac Herzog deverá consultar os partidos e encarregar um candidato de tentar formar governo. Se as sucessivas tentativas fracassarem dentro do prazo de aproximadamente cem dias, Israel terá outra eleição. Até lá, Netanyahu continua no cargo, apesar de ter perdido a maioria que o sustentava.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!