Neymar, Patrícia Pillar, Pelé e o mistério dos milionários que fazem caridade como autopromoção. Por Nathalí

Patrícia Pillar e Neymar Jr. Foto: Reprodução

Nathalí Macedo, colunista do DCM, escreve a briga em torno de Neymar Jr. com Patrícia Pillar por conta do Pelé. Entenda melhor sobre essa briga abaixo.

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Neymar versus Patrícia Pillar

Patrícia Pillar e Neymar Jr. Foto: Reprodução

Que sensação satisfatória é a de ver uma mulher feita dando um banho de lucidez em um moleque. Melhor ainda se o moleque – que, pela idade, já deveria se comportar como homem – for o Neymar.

Patrícia Pillar foi quem nos deu esse presente esta semana, quando classificou como “lamentável” o comportamento competitivo de Neymar, que falou em ultrapassar a marca de gols de Pelé enquanto o jogador permanece internado na UTI, depois de ser submetido a uma cirurgia para a retirada de um tumor suspeito no cólon direito.

Pode competir com o coleguinha que está batalhando pela própria saúde em um hospital? Pode.

É de bom tom?

Não, não é de bom tom.

Lamentável é pouco. O que melhor define essa atitude mesquinha (e, convenhamos, desnecessária), é pobreza de espírito, mesmo.

Se você vê outro ser humano – seu semelhante, e, nesse caso, alguém que construiu no esporte uma história que te permite ser o que você é hoje – internado na UTI e lhe ocorre competir com ele ao invés de ser capaz de uma atitude minimamente compassiva, meu amigo, você está podre por dentro.

Traduzir esse comportamento como lamentável chega a ser eufemismo – um eufemismo que, aliás, cabe perfeitamente na elegância de Patrícia Pillar.

Mas menino em corpo de homem, você sabe, não pode ser contrariado. É intrínseco a (quase) todo molecote com um rei na barriga: eles não aceitam sair por baixo. Jamé. E, às vezes, na tentativa de saírem por cima da carne seca, acabam chafurdando ainda mais na merda.

Foi o que aconteceu com Neymar, para surpresa de ninguém. Respondeu com emojis de risada e uma tentativa de ironia: “Ah pronto, tenho que parar de fazer gol agora.”

Ele tentou, mas ironia exige alguma inteligência. Eu até diria, embora sem certeza, que a ironia é a própria inteligência quando ela decide ser má. Quem não tem inteligência não faz ironia, só tenta.

Porque é claro que não se trata de “parar de fazer gol”. Trata-se de algo muito simples, mas distante do espectro moral de Neymar: ter um pouquinho de noção.

Não que Pelé seja boa coisa – quem não é bom pai nunca é boa coisa –  ou mereça especial respeito: ele merece o mesmo respeito que todos os outros seres humanos. Mas, convenhamos, o que é que o menino Ney respeita?

Por alguma razão, Patrícia continuou gastando seu português com o jogador. Respondeu, via Twitter: “Por uma questão de empatia e educação, não era hora para dizer que passaria o Pelé na artilharia. São essas delicadezas da vida que talvez você ainda não tenha aprendido”

“Delicadezas da vida”. Tive a impressão de que ela fala da tal “amabilidade de viagem” que devemos ter uns com os outros, como disse Fernando Pessoa.

Qualquer um com a mínima sensibilidade – alguém que não estivesse interessado apenas em lacrar nas redes sociais – faria bom proveito desse conselho. Mas não Neymar: ele preferiu responder com um link do Instituto Neymar Jr – criado por Neymar e família para ajudar crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade –  e a legenda “Meu GOL mais bonito”.

Um parêntese: quem confia em si mesmo não precisa convencer o outro, dar respostinha atravessada, postar no Twitter, etc. Quem ajuda os outros pelas razões certas não precisa – e nem quer, na verdade – tornar isso público. Publicizar caridade é coisa de quem – como está estampado na testa de Neymar – só quer inflar o próprio ego.

E o pior nem é isso. O pior é que a probabilidade de essa ONG existir pra sonegar imposto é altíssima, já que estamos falando de um famoso sonegador que joga futebol nas horas vagas.

Com fortuna avaliada em 500 milhões de reais, Neymar deveria ter vergonha de se sentir o próprio Robin Hood porque criou uma ONG – onde faz visitas esporádicas e propositalmente midiatizadas – pelo simples fato de que ele poderia fazer muito, mas muito mais.

Podem me chamar de radical – logo eu que, querendo a elegância de Patrícia Pillar, estou mais pra Dercy Gonçalves – mas ninguém deveria ter um patrimônio de quinhentos milhões de reais em um país em que milhões passam fome. É imoral.

Ninguém deveria – menos ainda – se negar a lutar por justiça social, se posicionando politicamente ao lado dos que exploram e alimentam a pobreza dos miseráveis neste país enquanto finge se importar fazendo caridade pra ganhar biscoito na internet.

O gol mais bonito de Neymar seria se tornar enfim um ser humano – e Patrícia Pillar certamente diria isso de um jeito menos dercygonçalvesco.

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