O mistério em torno da violência sofrida por Joice Hasselmann. Por Lola Aronovich

Joice Hasselmann mostra as agressões

Publicado no site Escreva Lola Escreva

POR LOLA ARONOVICH

Eu, assim como todo mundo, fiquei chocada com a agressão sofrida por Joice Hasselmann. Por mais que eu não tenha a menor afinidade com a deputada federal de extrema direita, rejeito todo tipo de violência, ainda mais contra as mulheres.

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Portanto, ela tem minha total solidariedade. Espero que a polícia (no caso, a polícia legislativa, que foi a que ela acionou) investigue e revele o que aconteceu, que é muito grave. Na noite de sábado, Joice estava em seu apartamento funcional em Brasília assistindo a uma série (o nome da série varia de acordo com a versão). Sete horas depois, ela acordou numa poça de sangue, com cinco fraturas no rosto, uma na costela, um dente quebrado, o queixo cortado, e um golpe na cabeça. Não se lembra de nada.

A primeira matéria que li sobre o caso foi a coluna de Bela Megale, de O Globo. Para a coluna, a parlamentar disse que, ao acordar, pensou que tivesse caído e se machucado sozinha. Não conseguia se levantar, então ligou pelo celular para o marido, o neurocirurgião Daniel França, que dormia no quarto ao lado. Joice explicou à coluna que ela e o marido não dormem no mesmo quarto porque ele ronca. Ele fez curativos. Ela só foi ao hospital na terça. Lá, os médicos disseram que não era possível se machucar tanto e em tantos lugares com uma queda, ao menos que fosse uma queda de escada.

Joice suspeita de um atentado, mas não tem certeza porque não lembra. Ela prestará depoimento hoje e já indicou testemunhas, como o marido, funcionários da casa e porteiros do prédio. Os vídeos das câmeras de segurança já foram recolhidos.
Depois eu vi uma entrevista de 35 minutos que ela deu ao SBT. Lá a história é um pouco diferente. Primeiro que ela mal menciona o marido. Ela fala mais do gatinho, que acabou não dormindo no quarto com ela naquela noite. Nessa versão, ela levantou, também sem lembrar de nada, viu sangue não só no chão do quarto, como também no banheiro, e gotas no espelho. Ela ligou primeiro para uma amiga, e depois para o marido (que não sabemos onde estava; nessa entrevista, ela não diz que ele dormia no quarto ao lado, só que “ele viaja muito”), que foi atendê-la.
Ela conta que o prédio está bastante vazio, por causa do recesso parlamentar, e que muita gente pode ter acesso às chaves dos apartamentos funcionais. E que ela acha que foi golpeada por trás, na cabeça ou na nuca, e só depois passou a ser agredida com mais força, possivelmente chutada. Ela contou que toma remédio para insônia, mas nunca tinha apagado daquele jeito. E que não houve luta, já que seria preciso três homens para derrubá-la, pois ela luta boxe.
Bom, obviamente quem tem que investigar tudo isso é a polícia, não a gente. E, repito, seja lá o que aconteceu, é grave e merece repúdio. Mas o maior suspeito nessas horas é o marido. Se ele dormia ao lado, que é a versão da coluna do Globo, é improvável que ele não tenha acordado. Afinal, a violência que Joice sofreu, com golpes, chutes e quedas, não é nada silenciosa. Além do mais, ele, sendo médico, ao ver sua esposa numa poça de sangue, teria chamado uma ambulância, em vez de simplesmente fazer curativos. Algumas pessoas acham que, como médico, ele pode ter facilmente dopado Joice. Como a narrativa não é que Joice saiu antes do ocorrido, a hipótese do “boa noite Cinderela” fica enfraquecida.
Pra mim, a relutância de Joice ao dizer onde estava o marido reforça a hipótese de violência doméstica. Se ela tivesse deixado claro desde a primeira versão que ele não estava lá, que ele estava viajando ou havia dormido em outro lugar em Brasília, ele não estaria sendo considerado um dos principais suspeitos. Como Joice inclusive o arrolou como testemunha, ou ele estava lá, ou será testemunha do estado em que ela foi encontrada. Espero também que Joice tenha feito corpo de delito e que a perícia tenha ido ao seu apartamento antes de ser limpo.
Hoje Joice descartou a possibilidade de que seu marido tenha batido nela. Joice, no seu estilo machista de sempre, disse: “não sou mulher de malandro e seria a primeira a denunciar qualquer agressão” e “não tenho o perfil de mocinha indefesa que sofre violência doméstica”, como se houvesse um perfil para isso. Ela também falou que seria mais fácil ela “dar uma sova” no seu marido que ele “ousar levantar a mão” para ela.
Que ela pode ter sido vítima de um atentado, claro que é possível. Mas o tipo de milícia que a atacaria — tem muita gente lembrando que foi pouco depois d’ela ter dito que Bolso falou pra ela antes da facada que, se ele fosse esfaqueado, ganharia a eleição (lembrando também que Bebianno morreu/ foi morto duas semanas depois de levantar suspeitas sobre a fakeada no Roda Viva) — não costuma apenas espancar. É eficiente em matar.
O que eu descarto de cara é que Joice tenha inventado isso para se promover. Falta mais de um ano para as eleições de 2022. Até outubro do ano que vem, ninguém mais se lembrará deste atentado ou caso de violência doméstica. Ela não queria se expor, tanto que foi ao hospital na terça com outro nome. Foi a imprensa que descobriu.
Joice mente muito, nós sabemos. Eu lembro quando ela passou a ser ameaçada de morte no final de 2016 pela mesma quadrilha mascu que ameaça a mim e ao Jean Wyllys, entre outros. Ela fez vários vídeos insistindo que as ameaças vinham de “petralhas”, mesmo sabendo muito bem que vinham de criminosos do seu espectro político (mascus, bolsonaristas, neonazis). Eu a defendi e disse acreditar nela quando ela contou ter recebido um gato morto em sua casa. Acredito porque li no chan da quadrilha um cara da França narrar como fez isso.
Neste caso ocorrido agora, mesmo que ela esteja mentindo para encobrir o marido — como fazem muitas vítimas de violência doméstica –, ela merece nossa solidariedade. Falei sobre isso hoje de manhã para o Fórum Onze e Meia.

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