O motim que não deu certo. Por Moisés Mendes

O motim que não deu certo. – Foto: Reprodução

O motim que não deu certo.

Por Moisés Mendes

Quem não quiser prestar atenção no que acontece na Bolívia (o golpe é um bicho vivo e ainda se mexe) não entenderá o que pode acontecer no Brasil.

O cenário que Bolsonaro prepara aqui é o mesmo que foi preparado para o golpe que acabou derrubando Evo Morales em novembro de 2019.

Não há no mundo, na História recente, nada parecido com o golpe boliviano. Antes de acionar os militares, o golpismo mobilizou as polícias, sem liderança forte, sem comando e sem organização.

Bolsonaro se convenceu de que não pode contar com as Forças Armadas e aposta tudo numa confusão em que os protagonistas sejam as PMs. É a tática dos motins.

Foi assim em outubro de 2019 na Bolívia. Foi a Polícia Nacional, a polícia fardada deles, mas com comando federal, que se levantou em motins e criou o caos, incentivada pela direita e pela extrema direita civil.

Os militares das três armas foram empurrados para o golpe porque não havia como controlar a instabilidade criada nas ruas com a ajuda da polícia. São os militares, sem coragem para reagir e sob as ordens dos amotinados, que assumem a tarefa de ordenar que Evo Morales renuncie.

Mas são eles, os comandantes das três armas e mais o chefe deles, o comandante das Forças Armadas, general Williams Kaliman, os primeiros a dizerem que não haviam criado aquela situação. Alguns tentaram saltar fora.

Tanto que Kaliman pede para entrar para a reserva e foge para os Estados Unidos. Volta ao país e foge de novo. Tem ordem de prisão do Ministério Público e é considerado foragido da Justiça desde o início de julho.

Os outros três chefes militares estão presos. Como também está preso o comandante da Polícia Nacional. Há inquéritos contra todos os líderes dos motins nos quartéis e pelos assassinatos cometidos depois do golpe.

Na Bolívia, o golpe iniciado pelos policiais não deu certo porque eles não tinham legitimidade para nada, não tinham força institucional e não tinham inteligência política. E porque os generais eram covardes.

Quem no Brasil imagina que as PMs tenham condições de aplicar e segurar um golpe, desafiando as Forças Armadas, as instituições e os próprios governos estaduais?

Quem seria o líder de um golpe das PMs? O próprio Bolsonaro? Os generais estariam sob as ordens de Bolsonaro e dos coronéis das PMs. Todos estariam misturados a golpistas fardados e a civis e milicianos?

É difícil imaginar que seja possível. Mas alguém ou alguns dentro das PMs acreditam que seja. Na Bolívia, eles acreditaram.

Os golpes só acontecem porque alguns acreditam que pode acontecer. Mas há entre esses os que não sabem direito como manter um golpe, e que talvez sejam a maioria.

Na Bolívia, o golpe das polícias e dos generais covardes resultou nos danos políticos conhecidos e no assassinato de 36 pessoas.

Na Bolívia, os golpistas são julgados pelo golpe e pelas chacinas que promoveram. O povo boliviano venceu o golpe. Esse é o maior exemplo.

____________________________________________________________________

Leia também

1- VÍDEO: Tenente Coronel da PM de SP critica Bolsonaro e ato golpista de 7 de setembro

2- MP da Justiça Militar quer saber quais PMs cometeram atos golpistas

SEIS ESTADOS

Onde poderiam ocorrer levantes? O Estadão informa que em seis Estados há articulações dos militares para que PMs inativos participem das manifestações de 7 de setembro.

Os incentivadores seriam militares das polícias militares da ativa e da reserva de São Paulo, Rio, Santa Catarina, Espírito Santo, Ceará e Paraíba.

O levantamento do Estadão exclui Alagoas, mas o governo desse Estado também estaria monitorando a organização das PMs para os atos pró-Bolsonaro.

(Texto originalmente publicado em BLOG DO MOISÉS MENDES)