“Os estudos dele são antiéticos”, diz ao DCM cientista que desmascarou Didier Raoult, guru da cloroquina

A microbiologista Elizabeth Bik. Foto: Arquivo pessoal

As críticas da pesquisadora Elisabeth Bik aos estudos de Didier Raoult incomodaram-no a tal ponto que ele resolveu processá-la.

Consultora em integridade científica, a microbiologista holandesa analisa pesquisas que potencialmente têm problemas éticos e erros metodológicos, como lhe parece ser o caso recorrente do defensor da cloroquina para tratar a Covid-19.

“Eu encontrei problemas em diversos de seus estudos. Encontrei problemas em imagens em diversos de seus estudos, problemas de aprovação ética, em grupos de moradores de rua”, relata.

No caso da cloroquina, ela descobriu que nenhum dos estudos produzidos por Raoult era randomizado, isto é, quando uma pesquisa se baseia na análise de dois grupos de pacientes em condições de saúde semelhantes; um que recebe um medicamento e outro que recebe um placebo.

“Parece que as pessoas que ele escolheu para receber hidroxicloroquina já estavam com uma saúde melhor no início do tratamento. Se houver menos mortalidade nesse grupo, então você não terá como saber se foi graças à hidroxicloroquina ou apenas porque eram mais jovens ou estavam em melhor forma”, explica.

Uma outra descoberta é que os problemas da ciência praticada por Raoult vão muito além das fronteiras francesas. “Seus estudos são uma ciência neocolonial”, afirma.

Segundo a cientista, a definição vale para as pesquisas do diretor do Institut Hospitalo-Universitaire de Marselha (França) em povos pigmeus do Congo sem o envolvimento de cientistas locais.

Ela diz que vale também para as amostras genéticas colhidas por seu laboratório no Brasil e enviadas para a França, como revelou o DCM. “Não estou dizendo que se trata de algo ilegal e sim de algo antiético”, diz a pesquisadora.

Bik explica que a definição lhe valeu uma onda de ataques virtuais da equipe de Raoult e seus seguidores nas redes sociais. “Há uma linguagem muito ameaçadora, do tipo ‘você vai parar na cadeia’, ‘as cadeias de Marselha são horríveis e você vai pagar por isso’”.

Em entrevista ao DCM, ela explica como vem enfrentando as ameaças, fala aos senadores da CPI brasileira da Covid-19 e detalha os problemas metodológicos das pesquisas conduzidas por Raoult.

DCM: Quais são as suas principais descobertas em relação às inconsistências dos trabalhos do professor Didier Raoult sobre a Covid-19?

Elizabeth Bik: O que eu descobri nesses estudos sobre a hidroxicloroquina é que quase ou nenhum deles é randomizado. Isso significa que ele trata alguns pacientes com hidroxicloroquina e não trata outros. Mas os dois grupos de pacientes não são exatamente iguais.

Eu descobri nos seus estudos que alguns pacientes têm condições menos crônicas ou estão menos doentes. Parece que as pessoas que ele escolheu para receber hidroxicloroquina já estavam com uma saúde melhor no início do tratamento. Se houver menos mortalidade nesse grupo, então você não terá como saber se foi graças à hidroxicloroquina ou apenas porque eram mais jovens ou estavam em melhor forma.

Ele geralmente trata pessoas que não estão muito doentes, pessoas que não teriam problemas em se recuperar de qualquer modo. Você não pode comparar essas pessoas com pessoas que estão sob ventiladores, muito doentes, internadas em hospitais.

DCM: Você está falando de um estudo em específico ou de todos os artigos que eles publicaram desde o início da pandemia?

Elisabeth Bik: Eu não considerei todos os artigos que ele publicou. Ele provavelmente publicou outros artigos não relacionados à hidroxicloroquina. Ele também publica sobre suas próprias pesquisas.

Eu foquei em três ou quatro de seus estudos e o que ele publicou em março do ano passado, sobre a hidroxicloroquina, que deu início a tudo isso. Esse pequeno estudo, que analisou em torno de 40 pacientes.

DCM: Esses métodos não randomizados persistem nos estudos coordenados por Raoult?

Elisabeth Bik: Exato. Ele disse que, diante de uma pandemia, se um tratamento funciona, não se deve fazer estudos randomizados. Esse é o raciocínio dele.

Ele nos apresenta a hidroxicloroquina como o que vai salvar todo mundo. Na realidade, a mortalidade era bastante baixa, de apenas algumas pessoas.

Ele não acredita na randomização no contexto de uma epidemia mortal. Se você pensa como um pesquisador, você tem um tratamento que funciona muito bem. Ele se sente nessa situação, como quem não deve fazer uma randomização.

Eu realmente penso que seu tratamento não funcionou muito bem. Não muito mais do que não tratar. E não parece ter salvo muitas vidas.

Você tem que randomizar. Se você quiser comparar e provar que um medicamento é melhor, você tem que ter dois grupos iguais em todos os aspectos. É assim que a ciência funciona. É assim que se prova que um medicamento funciona.

DCM: Didier Raoult tuitou recentemente que você deletou “seus comentários mais ofensivos na Pubpeer (plataforma de discussões e revisões científicas): o medo da justiça… Nós guardamos, é claro, a evidência do assédio ao qual IHU foi submetido sob a iniciativa dela”. Como você responde?

Elisabeth Bik: Ele argumenta que eu o expus chamando-o de neocolonialista. Eu nunca o chamei de neocolonialista. Eu li artigos que dizem que a ciência que ele faz pode ser interpretada como ciência neocolonial. Eu não o chamei pessoalmente de neocolonialista. Ele está deturpando a verdade neste caso.

De fato, houve algumas remoções. Eu me pergunto se ele acha que são insultos, se ele não ficaria feliz que eu os removesse. Então, ele vai me processar porque eu os removi? Eu não o entendo muito bem (risos).

Ele quer que eu elimine esses comentários ou que eu os mantenha? Parece bobo. Eu apenas disse que seus estudos são uma ciência neocolonial, que ela pode ser interpretada como ciência neocolonial, que ela corresponde à definição de ciência neocolonial.

Eu não sinto que eu o insultei. Ele pode obviamente interpretar dessa forma. Eu apenas li artigos que dizem que seus artigos podem ser concebidos como ciência neocolonial.

Eu não chamaria Raoult de neocolonialista. Não foi o que eu disse.

DCM: Por que os métodos de Didier Raoult correspondem a uma ciência neocolonial?

Elisabeth Bik: A definição de ciência neocolonial, como eu compreendi e está disponível no Wikipedia, corresponde à pesquisa feita por países economicamente ricos em países que são menos ricos ou talvez pobres sem realmente envolver cientistas locais.

Eu vi exemplos no Chile, onde pessoas vão atrás de amostras do deserto do Atacama, amostras de solo, de animais ou plantas que vivem lá. E então publicam sobre isso, sem tentar envolver cientistas locais.

Cientistas que fazem essas pesquisas estão de uma certa maneira enriquecendo em termos de publicações científicas, sem realmente dar uma chance às pessoas que moram naquele país e que gostariam de fazer pesquisa mas não têm meios para isso.

Neste caso, era um cientista da França indo para o Congo e colhendo uma amostra de pigmeus, sem o envolvimento de cientistas locais.

Havia também um problema ético. Deveria haver uma aprovação ética local, mas foi sua própria instituição que deu a aprovação e não uma pessoa do Congo.

Todo mundo ficaria furioso se um grupo de outro lugar, da Rússia, fosse à França e colhesse uma amostra de moradores de rua de Marselha e publicasse sem o envolvimento das autoridades locais.

DCM: Nós publicamos recentemente uma reportagem que explica que o laboratório de Didier Raoult coletou amostras de bactérias e piolhos em seres humanos no Brasil e os enviou para a França, sem mencionar a autorização das autoridades brasileiras nos artigos publicados desde então. Há um paralelo?

Elisabeth Bik: (risos) Claro. Parece exatamente a mesma situação dos estudos sobre os pigmeus do Congo. Diz-se Congo mas não está claro em qual das duas repúblicas a coleta de amostra foi feita.

Talvez haja ou não uma autoridade para proteger assuntos ligados à pesquisa nos países do Congo. Eu não tenho conhecimento disso. Mesmo assim, é antiético.

Mesmo dez anos atrás, sabemos que pesquisas relacionadas a humanos deveriam ser feitas sob certas regras éticas. As regras legais são uma outra questão. Não estou dizendo que se trata de algo ilegal e sim de algo antiético.

Como cientistas, decidimos que é antiético fazer pesquisa sem o olhar de uma pessoa independente sobre se a proposta de pesquisa respeita as regras da decência.

Penso que dizer “não havia um comitê de ética” é lavar as mãos. Poderiam ter perguntado a um pesquisador se as regras estavam sendo seguidas. São mais regras éticas do que legais. Não estou dizendo que os métodos dele são ilegais, estou dizendo que são antiéticos.

Parece ser exatamente a mesma situação que a dos estudos do Congo.

DCM: O parceiro brasileiro do laboratório de Raoult disse que uma autorização foi pedida às autoridades brasileiras e então perguntamos por que ela não é citada nos artigos. Ele respondeu que os artigos levam muitos anos para serem publicados.

Elisabeth Bik: Ele (Raoult) publica em três semanas (risos).

DCM: A coleta de amostras no Brasil foi feita em 2011 e 2013 e artigos foram publicados em 2016 e 2020. Então, o pesquisador disse que não houve tempo suficiente para modificá-los.

Elisabeth Bik: Uma aprovação ética tem que ser a prioridade número um. Não é algo que se coloca depois. Num artigo sobre pesquisa em seres humanos, tem que ser o primeiro elemento contemplado quando se publica.

Não sei em que revista eles foram publicados, mas ela tem a responsabilidade de verificar esses elementos. E provavelmente isso não foi feito.

Ele pode obter a aprovação do IHU (Institut Hospitalier Universitaire, em Marselha). Mas ele (Raoult) é o IHU. Ele é ao mesmo tempo cientista e diretor administrativo. Ele pode dizer ao comitê do IHU para aprovar a proposta de estudo. O comitê de ética não vai dizer “professor Raoult, você não pode fazer esse estudo” porque ele é o chefe deles. Ele está numa posição muito poderosa. Eles vão todos aprovar.

Raoult não quer que ninguém diga “não” para ele. Eu sinto que ele está potencialmente abusando de seu poder para obter aprovações éticas para seus estudos.

DCM: Parece efetivamente difícil acreditar numa independência…

Elisbeth Bik: Na França, se você fizer pesquisas em assuntos relacionados a seres humanos, você tem que obter a aprovação do CPP (Comité de protection des personnes – comitê de proteção de pessoas em português -, órgão criado em 2004).

Há vários CPP na França, aproximadamente 30. Então ele tem que obter a aprovação do CPP local para os seus estudos. Na França, você não pode aprovar sua própria pesquisa, você tem que submetê-la a um grupo independente.

DCM: Como você percebe as consequências sociais e sanitárias dos estudos publicados por Didier Raoult em países como o Brasil de Jair Bolsonaro ou os Estados Unidos de Donald Trump?

Elisabeth Bik: Raoult publicou esse pequeno estudo sobre a hidroxicloroquina. Trump twittou sobre isso, dizendo que era um divisor de águas.

Trump twittou o link do estudo. É a única vez que Trump publicou sobre ciência (risos). Isso foi muito divertido. Ele promoveu esse estudo, mesmo sendo um pequeno estudo.

Consumindo a hidroxicloroquina, pessoas morreram nos Estados Unidos. Eu acredito que o Brasil decidiu usar também essa droga como escolha principal.

Há enormes consequências porque a hidroxicloroquina parece não ter ajudado muito. E, inclusive, deve ter efeitos colaterais.

E deve desviar a medicação de pessoas que realmente precisam da hidroxicloroquina para tratar lúpus. Houve pessoas que usavam essa droga mas que não puderam utilizá-la porque muitas outras pessoas estavam usando. Então isso deve ter custado vidas.

Isso parece um grande desperdício de tempo porque não parece ter ajudado muito as pessoas.

DCM: O que você tem enfrentado desde que apontou as inconsistências dos estudos de Didier Raoult?

Elisabeth Bik: Acredito que ele me chamou no Twitter de caçadora de bruxas. Eu entendo essa reação.

O professor Raoult não estava contente com a minha crítica de seu estudo. Ele pode ficar chateado comigo. Mas eu não encontrei problemas apenas nos seus estudos em relação à hidroxicloroquina.

Eu encontrei problemas em diversos de seus outros estudos. Encontrei problemas em imagens em diversos de seus estudos, problemas de aprovação ética, em grupos de moradores de rua.

Ele estudou moradores de rua de Marselha e usou o mesmo protocolo de aprovação ética para 17 estudos diferentes. Então, eu perguntei sobre isso no Pubpeer (plataforma na internet de questionamento de estudos científicos). Ele nunca respondeu nenhuma dessas perguntas.

Microbiologista francês Didier Raoult ganhou prêmio satírico por propagar a “pseudociência” (Foto: SEYLLOU/AFP)



DCM: Significa que ele utilizou nos 17 estudos a autorização do comitê de ética para apenas um estudo?

Elisabeth Bik: Eu não tenho muita certeza. Talvez a autorização que ele recebeu cobre os 17 estudos. Eu estava tentando descobrir o que esse protocolo contemplava.

Era um estudo para verificar se com um medicamento moradores de rua poderiam se livrar de piolhos. Ou haveria testes para verificar a porcentagem de moradores de rua com tuberculose.

Normalmente, há protocolos diferentes para cada um desses estudos porque cada protocolo deve ser muito detalhado e dizer que tipos de amostras serão coletadas e como as pessoas serão selecionadas.

Pelo menos nos Estados Unidos, normalmente os protocolos não preveem que você possa fazer o que você quiser com moradores de rua; é preciso ser muito específico em relação a quantas amostras serão coletadas e quantas pessoas selecionadas.

Usar um mesmo protocolo para 17 estudos ao longo de dez anos parece um pouco estranho. Então eu perguntei: Você pode nos mostrar o que o protocolo prevê? Ele não respondeu.

Em setembro do ano passado, um de seus colaboradores, Eric Chabrière, começou a me perguntar no Twitter: “quem está lhe pagando? São as grandes indústrias farmacêuticas?”

Eles partem do princípio que se estou criticando a hidroxicloroquina é porque estou sendo paga por algum grande laboratório farmacêutico, algum competidor. Mas eu não sou anti-hidroxicloroquina. Eu estava apenas reticente em relação a esse estudo.

Eric Chabrière começou a me assediar no Twitter, fazendo falsas insinuações. Num dado momento, ele me perguntou quem estava me pagando. Então eu respondi que tenho uma conta na Patreon (plataforma de crowdfunding de criadores de conteúdo online), “se você quiser me apoiar por aqui”. Ele então me acusou de extorsão.

Não foi apenas Eric Chabrière, mas todos os seus seguidores estão me assediando. É muito estressante porque há uma linguagem muito ameaçadora, do tipo “você vai parar na cadeia”, “as cadeias de Marselha são horríveis e você vai pagar por isso”.

DCM: Deve ser muito duro psicologicamente receber ataques de uma grande quantidade de pessoas tão ofensivas.

Elisabeth Bik: Eles usam toda a energia deles mandando esse tipo de mensagem para mim, mas não implicam nenhuma energia respondendo às perguntas científicas que eu lhes fiz. Isso me diz que meu ponto é válido. Eles não têm nenhuma resposta às minhas perguntas.

É isso que eu me digo: se eles reagem com insultos e nenhuma resposta, então não deve haver nenhuma resposta.

duas petições de cientistas me apoiando. Isso fez uma grande diferença porque agora eu sinto que não sou apenas uma pessoa fazendo essas perguntas, há outras pessoas se questionando da mesma maneira e me apoiando nas minhas perguntas. Eu me sinto muito apoiada.

DCM: Em que estágio está o processo que Didier Raoult está movendo contra você?

Elisabeth Bik: Não sou muito familiarizada com a maneira como o sistema legal funciona na França. Aparentemente é muito diferente dos Estados Unidos ou da Holanda. Parece-me que não se pode processar diretamente uma pessoa. Primeiro há a denúncia à polícia e depois um procurador vai decidir se há evidências suficientes para processar.

Acredito que está neste estágio, na mesa do procurador. Mas o procurador ainda não decidiu se ela ou ele vai dar continuidade. Depende de se há provas suficientes. Mas eu não sei o que há nessa denúncia.

Eles não compartilharam a denúncia comigo. Não me mandaram sequer um e-mail, nem me contactaram pessoalmente para me informar que havia uma denuncia contra mim. Apenas o anunciaram no Twitter e com um vídeo em que o advogado dizia que havia uma denuncia feita. Mas eu não sei quais são as evidências que eles têm de que eu os ameacei ou assediei.

DCM: Na sua opinião, por que Didier Raoult e seu laboratório ainda defendem a hidroxicloroquina contra a Covid-19 mesmo depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) apontar sua ineficácia?

Elisabeth Bik: Eu imagino que ele seja muito teimoso e não queira ouvir outras evidências. Eu apenas posso especular que ele queria encontrar a cura para a Covid-19.

Como pesquisador, você quer fazer uma descoberta. Quando há uma situação em que pessoas estão morrendo por causa de uma nova doença, entramos em pânico. Todos os cientistas evidentemente têm esperança, esperam encontrar um medicamento e ajudar as pessoas.

Eu penso que suas intenções eram muito boas, ele queria ser o professor que descobriu a cura. Ele pensou que a hidroxicloroquina era a cura.

Eu não tenho muita certeza se ele ainda acredita, pela maneira como ele procedeu no início. Aquilo não parece fazer muito sentido. Ele acredita nas próprias evidências, sem considerar o que outras pessoas dizem.

Ele não parece aberto a críticas, discussão, outras evidências.

DCM: Do seu ponto de vista americano e holandês, surpreende que Raoult ainda exerça a atividade de médico e pesquisador?

Elisabeth Bik: Sim, um pouco surpresa. Ele parece ter muito poder. Parece ser difícil na França perder o cargo de professor.

Outras pessoas dizem que em outros laboratórios há casos, por exemplo, de assédio sexual, bullying, mas é muito difícil tirar essas pessoas destes cargos. Talvez suas posições sejam para a vida inteira, independentemente do que se faça. Parece ser muito difícil demitir uma pessoa na academia francesa.

Raoult ameaça processar qualquer pessoa que o criticar. Estou muito feliz em não trabalhar em seu laboratório porque eu não poderia fazer o que faço agora. Não vou ceder a suas ameaças.

Eu vou continuar fazendo o que estou fazendo, revisar estudos sobre a hidroxicloroquina. Não vou parar. Mas eu acredito que muitas outras pessoas teriam parado de criticá-lo.

DCM: É possível manter essa atitude na Holanda ou nos Estados Unidos?

Elisabeth Bik: Provavelmente há muitos casos em que pessoas poderosas puderam fazer coisas ruins por muito tempo, sem nenhuma sanção. Provavelmente não é algo único na França.

Podemos todos pensar em casos em que homens poderosos mantêm uma cultura de medo e coisas ruins, como assédio sexual, bullying, ameaçando a democracia, sem ninguém para corrigi-la. A maioria dessas pessoas são tão poderosas que elas ameaçam lhe perseguir, acabar com a sua carreira.

DCM: Você quer dizer que essa atmosfera de perseguição à revisão, à crítica, pode ser normal na ciência?

Elisabeth Nik: Não é normal (risos). Isso acontece. Na ciência, há exemplos, mas não apenas na ciência. Em qualquer campo, isso pode ser encontrado, como na indústria do cinema, na política, na finança, tenho certeza de que isso acontece em todo lugar.

DCM: No Brasil, uma CPI analisa neste momento os problemas de gestão da Covid-19 e a defesa de Jair Bolsonaro da cloroquina como um tratamento precoce. O que você teria a dizer aos senadores que ainda mobilizam os estudos de Didier Raoult?

Elisabeth Bik: Eu não acredito que haja estudos que provem que a hidroxicloroquina é eficaz (contra a Covid-19), tanto para a doença em estado avançado quanto para tratamento precoce.

Há muito debate político baseado em evidências muito pequenas ou sem evidências. Os políticos não devem considerar os cientistas que gritam mais alto com pequenos estudos, mas devem ouvir também outros cientistas que realmente fazem uma boa ciência.

Não se pode tomar uma grande decisão política baseado num pequeno estudo, que foi muito criticado por muitos outros. Antes de tomar uma decisão, é preciso considerar estudos realizados em grandes quantidades de pacientes. Só depois haverá condições para tomar uma decisão política em como tratar as pessoas.

DCM: Você gostaria de adicionar algum esclarecimento?

Elisabeth Bik: Eu gostaria de esclarecer que eu não sou uma crítica dos estudos sobre hidroxicloroquina. Eu critico diversos tipos de estudo, como em relação à aprovação ética de estudos, manipulação de imagens. E outras pessoas são críticas.

Até agora, Raoult tem em torno de 150 estudos na Pubpeer. Eu postei 63 ou 64. Outras pessoas também postaram.

Eu critiquei 4000 estudos na Pubpeer. Eu foco em qualquer estudo que tenha algum problema potencial. A maior parte dos problemas que eu encontro é relacionada a imagens. Eu também encontrei problemas éticos em diversos outros estudos.