Por que meus filhos se sentem desamparados. Por José Cássio

O ministro da Saúde e Bolsonaro em live
Não é com o nosso país que Alice e Mateus vão contar

Tenho um filho de 13 anos, Mateus, e uma menina de 17, Alice.

Crio os dois sozinho – minha mulher teve um câncer devastador e nos deixou há dois anos.

Na pandemia, prevendo as noites de terror que viveríamos, optei por sair de São Paulo. A ideia era evitar que nossa vida virasse um caos.

As crianças perderam a mãe, a casa, os amigos, a escola, a cidade e foram cair de paraquedas num local estranho.

Sábado passado eu estava de folga. Fui a um churrasco com amigos. Alice me ligou às 19h e combinamos de ir buscar o irmão no clube.

Eu estava exausto. No meio do caminho, parei o carro e dormi. Acordei uma e meia da manhã. Nem sei dizer quantas mensagens tinha no meu celular. Familiares acudiram os dois.

Foram ao hospital, à delegacia e nada de me encontrar.

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No fim da história, passei por irresponsável.

E fui mesmo.

O fantasma da perda é uma constante no imaginário das crianças. Alice já estava fazendo planos de como iria cuidar do Mateus sozinha.

Na segunda, ainda impactada pelo susto, agendou a primeira dose da vacina para ela e o irmão. Não imginava que a imunização representasse tanto para os dois.

A picada da agulha foi como tirar um peso das costas dos 2. Ufa! Nossa família continuaria em pé. Viva. Juntos, enfim.

Esse testemunho não importa para o governo do meu país – óbvio que não sou pretensioso a ponto de imaginar que deveria.

O que espanta é o descaso não com meu pequeno mundo, mas com todos. A ponto do ministro da Saúde se juntar ao presidente da República e mentirem sobre a imunização para impedir a vacina em adolescentes.

Chegam ao ponto de dizer que a Organização Mundial da Saúde não recomenda a aplicação de doses a essa faixa etária.

Mentira. Essa nunca foi a orientação da OMS, pelo contrário. Diz que não é prioridade, mas tendo vacinas, reforça que todos devem se imunizar.

De resto, ainda desdenham a escola.

Alice estava certa ao se apavorar com meu sumiço no sábado. Sabe que, exceção do pai e do irmão, está desemparada desde que a mãe se foi.