Pseudociências e a tradição espírita no Brasil. Por Carlos Orsi

Pseudociências e a tradição espírita no Brasil. Por Carlos Orsi. Foto: Reprodução/Revista Questão da Ciência

Publicado originalmente na Revista Questão de Ciência

POR CARLOS ORSI, jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro “Ciência no Cotidiano” (Editora Contexto)

No início do ano, Natalia Pasternak e eu comentamos, em nossa coluna mensal na revista inglesa The Skeptic, que aqui no Brasil muitas das pseudociências, principalmente na área de saúde, recebem uma forte influência, e até apresentam uma grande interseção, com o espiritismo kardecista. Especulamos que o prestígio e a grande penetração social do espiritismo na sociedade brasileira poderia facilitar a aceitação popular de ideias e práticas rejeitadas pela ciência.

Alguns brasileiros que leram o artigo no site britânico consideraram o conteúdo desconcertante, ou hostil à religião kardecista. Não era a ideia: queríamos apenas chamar atenção para o que parece ser uma peculiaridade muito específica do caráter nacional, com impacto na epistemologia popular — na forma como as pessoas decidem intuitivamente, no dia a dia, o que deve ser visto como conhecimento confiável.

A impressão de que essa peculiaridade existe emerge de alguns desenvolvimentos recentes, como a disponibilização, em serviços de streaming, de pelo menos dois documentários sobre ufologia e com forte viés espírita (Data Limite e Despertar, ambos no Prime Video da Amazon), mas, com muito mais força, de uma série de fatos históricos.

O mais saliente é a afinidade profunda entre kardecismo e a pseudociência médica da homeopatia no Brasil, e que remonta aos tempos da chegada da doutrina espírita ao país, nas últimas décadas do século 19. É impossível tratar do desenvolvimento de um desses sistemas aqui em Pindorama sem dizer, também, um bocado a respeito do outro. Muitas das mais combativas lideranças pioneiras do espiritismo entre nós eram médicos homeopatas ou médiuns receitistas — médicos ou leigos em Medicina que, quando em comunicação com espíritos, emitiam receitas homeopáticas.

Esses médiuns, que atendiam de graça, eram muito procurados pela população mais pobre, nos tempos do Império e início da República. Havia figuras da elite nesse papel: Bittencourt Sampaio (1834-1895), que ocupou os cargos de presidente da Província do Espírito Santo e de diretor da Biblioteca Nacional, era receitista. E a elite também recorria a eles. Conta-se que o terceiro presidente da República, Prudente de Morais (1841-1902), usou dos serviços do médium receitista leigo Domingos Filgueiras (1846-1906) durante uma ausência de seu médico pessoal, o homeopata Joaquim Murtinho (1848-1911).

A historiadora Sylvia F. Damazio aponta, no livro “Da Elite ao Povo: Advento e Expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro”, que “a partir de 1900, a expansão do espiritismo no Rio de Janeiro deveu muito à prática homeopática pelos médiuns”.

Mente-Espírito-Matéria

Cem anos depois do auge dos médiuns receitistas, a afinidade entre espiritismo e pseudociências da área de saúde (mas não só) havia se ampliado de modo significativo. Forte sinal disso foi a predominância de lideranças espíritas no Primeiro Congresso Internacional de Terapias Alternativas, realizado no Brasil em 1985, na cidade de São Paulo (nas palavras do antropólogo americano Brian Hess, o espiritismo era a “ordem por trás da aparente mixórdia de terapias alternativas” representadas ali).

Outro indício claro foi a irmanação, também registrada por Hess, entre espíritas, parapsicólogos, ufólogos e defensores da medicina “natural” durante um evento tríplice realizado em Brasília, também em 1985, com o título de Quarto Congresso Brasileiro de Parapsicologia, Primeiro Encontro Nacional de Pesquisadores dos Campos de Parapsicologia, Psicobiotrônica e Psicobiofísica; e Terceiro Congresso Nacional de Medicina Natural.

Dois dos principais oradores da ocasião foram o general do Exército Alfredo Moacyr de Mendonça Uchôa (1906-1996), pioneiro da ufologia nacional e parapsicólogo crítico do “materialismo”, e o professor Octavio Ulysséa (1931-2009), fundador das Faculdades Integradas Espírita (campus Bezerra de Menezes), instituição educacional localizada no Paraná, ativa até hoje e que atualmente oferece cursos de pós-graduação em Constelação Familiar, Acupuntura e Ioga, além de áreas acadêmicas mais tradicionais como Controle e Manejo de Pragas Urbanas e Biologia Marítima.

Ulysséa, segundo relato de Hess em seu livro “Spirits and Scientists”, clamou no evento por “uma nova epistemologia para uma Nova República”. Esse triplo congresso recebeu a visita do então governador do Distrito Federal, José Aparecido Oliveira (1929-2007), que defendeu a “medicina natural” como a “medicina do povo”.

No mesmo ano, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) promovia sua “Primeira Conferência Internacional de Interação Mente-Espírito-Matéria”, também com a presença de espíritas notáveis, e tendo como convidados internacionais algumas estrelas da parapsicologia da época, como Helmut Schmidt (1928-2011) e Jack Sarfatti. Nos anos 70, Sarfatti, ao lado de Fritjof Capra e outros, havia criado, na Califórnia, o Fundamental Fysiks Group, um círculo informal de debates entre físicos que viria a desenvolver e popularizar interpretações místicas da Física Quântica.

O ano de todos esses eventos, 1985, não poderia ser mais significativo: foi o fim da ditadura, o início da redemocratização, o princípio da reconstrução do arcabouço institucional do Brasil. Pouco depois, no primeiro semestre de 1986, a 8ª Conferência Nacional de Saúde sacramentaria a oferta de terapias alternativas como uma das diretrizes do futuro Sistema Único de Saúde.

O lugar da ciência

O educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), usando o pseudônimo de Alan Kardec, publicou, em 1857, “O Livro dos Espíritos”, obra inicial da doutrina espírita.

O chamado movimento espiritualista moderno — definido, em linhas bem gerais, como a crença firme na imortalidade da alma e na capacidade dos mortos de falar com os vivos — tivera início nos Estados Unidos, em 1848, com uma série de sons misteriosos ouvidos na casa da família Fox, em Hydesville, estado de Nova York, e atribuídos a um espírito. As filhas mais novas da família, Maggie (1833-1893) e Kate (1837-1892), anos depois, confessariam que tudo havia sido uma brincadeira, com Maggie demostrando os truques usados para assombrar os pais diante de um auditório lotado.

O espiritismo de Kardec é um ramo desse movimento, mas que incorpora elementos derivados da teoria do magnetismo animal, do médico austríaco Franz Anton Mesmer (1734-1815), doutrina que teve a “honra” de ser a primeira pseudociência desmascarada por um comitê de investigação cética; do socialismo utópico, pré-marxista, com sua forte ênfase em harmonia, solidariedade e caridade; e abraça também o princípio da reencarnação, que poderia ocorrer na Terra ou em outros mundos.

A cultura francesa em que Rivail/Kardec trabalhava e escrevia estava sob forte influência da filosofia positivista. Nela, o único conhecimento genuíno é o que vem da observação de fatos empíricos. O conflito entre sentimento religioso, a busca por transcendência e o norte positivista era um irritante da consciência coletiva, e o trabalho de Kardec representa uma tentativa de alívio.

O espiritismo pega temas centrais do sentimento religioso europeu — crença num deus único, justo e bom, e na imortalidade da alma individual — e busca torná-los aceitáveis para a mentalidade positivista, adotando como veículo um evolucionismo lamarckiano, teleológico, onde não apenas as espécies, mas as almas, as sociedades, as ciências e as religiões viriam a aperfeiçoar-se ao logo do tempo, convergindo para um estado ideal. Nessa cadeia universal do ser, o espiritismo seria o passo evolutivo seguinte na história da filosofia, da ciência e das religiões.

Em sua obra “O que é o Espiritismo?”, Kardec diz que a doutrina está para os fenômenos espirituais assim como a teoria eletromagnética da Física está para os fenômenos elétricos. Essa é uma forte reivindicação de validade universal e, pelas regras do jogo da ciência, totalmente desprovida de base.

Metapsíquica

Enquanto esteve à frente do espiritismo, no entanto, o próprio Kardec minimizou o aspecto científico. Em outros escritos, ele dá a entender que a “ciência” espírita já pressupunha a vida após a morte e devia dedicar-se a deduzir as obrigações morais decorrentes disso, e não tratar da etapa anterior, do estabelecimento da realidade dos fenômenos espirituais.

Em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec afirma: “A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter. O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal”.

Mas Kardec morreu em 1869, momento em que ganhava corpo, primeiro na Inglaterra e depois pelo mundo, a “pesquisa psíquica”, em que cientistas ostensivamente neutros punham-se a avaliar fenômenos produzidos por médiuns. O primeiro grande nome da área foi o químico William Crookes (1832-1919), que iniciou seus estudos do médium escocês D.D. Home (1833-1886) em 1870.

A despeito do currículo admirável nas ciências exatas — ele havia descoberto o elemento químico tálio em 1861 —, Crookes, em seus experimentos com médiuns, foi criticado por defeitos metodológicos (uma correspondência na Nature, já em 1871, apontava várias inadequações). Mais tarde, historiadores viriam a acusá-lo de violações éticas graves. Embora o espiritualismo eclético anglo-saxão diferisse do espiritismo francês, mais doutrinário e disciplinado, o vislumbre de uma possibilidade de validação científica seduziu muitos no continente.

Gabriel Delanne (1857-1926), uma das lideranças que emergiram na França nas décadas após a morte de Kardec, foi um desses seduzidos. Delanne atuou como assistente do fisiologista Charles Richet (1850-1930) na investigação dos fenômenos produzidos pela médium Marthe Béraud (1888-1943) na Argélia, e acompanhou os estudos realizados com ela em Paris, onde Béraud atuava com o pseudônimo de Eva Carrière.

Marthe/Eva foi exposta como fraude em ambas as ocasiões. Na Argélia, o grupo responsável por armar as aparições do “fantasma” evocado pela médium fez uma confissão pública. O próprio Richet, além de provar que a “alma desencarnada” expirava dióxido de carbono, admitiu que o tal espírito parecia usar uma barba falsa (uma foto desse espírito, chamado Bien Boa, ilustra este ensaio). No fim, porém, tanto o cientista quanto Delanne recusaram-se a reconhecer que tinham sido enganados. Richet, que em 1913 viria a ganhar o Nobel de Medicina, chegou a fundar um novo campo, a “metapsíquica”.

No período entre as guerras mundiais, o kardecismo francês cansou-se de esperar pelo reconhecimento científico, e as correntes do movimento voltadas a obras sociais e ao misticismo acabaram tornando-se predominantes. Os que ainda buscavam validação científica criaram uma “ciência paralela” que, com o tempo, passou a ignorar a (e a ser ignorada pela) “ciência oficial”.

Psicanálise do Além

Nas palavras do estudioso de Literatura Francesa Michel Pierssens, no ensaio Turmoil of the Unknown, de 1995, essa ciência paralela se constitui numa “ciência ‘popular’ (…) que é a única que pode avançar onde a ciência oficial só pode parar. A ciência do desconhecido, otimista e audaciosa, faz frente à ciência do conhecido, covarde e cética”. É curioso comparar a formulação de Pierssens com o que Kardec escreve em seu livro “A Gênese”, de 1868: “O Espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da matéria; admite tudo o que o segundo admite; mas, avança para além do ponto onde este último para”.

Essa “ciência do desconhecido” ocupa um continente à parte no planeta das pseudociências: uma terra fantástica onde se encontram caçadores de Yéti, buscadores da Atlântida e exploradores interdimensionais. Uma região lúdica, que tangencia o mundo da ficção científica e é, na medida do possível, inofensiva, ao menos enquanto não degenera em teorias conspiratórias.

Diferentemente do que aconteceu em outros países, no entanto, no Brasil a “ciência paralela” espírita não se descolou de vez da ciência oficial, não se tornou de fato “paralela”, mas seguiu indevidamente emaranhada ao saber aceito, consensual.

A razão é simples: a “ciência ousada” dos espíritas brasileiros não se limitou a falar das propriedades fluídicas do além-túmulo ou dos reinos hipotéticos do interior da Terra Oca, mas também de saúde, doença e cura. A aliança férrea com a homeopatia talvez tivesse tornado essa peculiaridade inevitável, mas cimentou-a o livro “A Loucura Sob Novo Prisma” (1920, póstumo), do médico, político, médium receitista e líder espírita — às vezes chamado de “Kardec brasileiro” — Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900).

Nessa obra, o autor funda uma psiquiatria de bases espíritas, reinterpretando o processo kardecista de “desobsessão” (para afastar espíritos maus) como psicoterapia. Assim como a psicanálise freudiana, a terapia de Menezes é uma “cura pela fala” baseada numa metafísica idiossincrática, mas com dois pacientes por vez: o doente e o espírito obsessor, que não é expulso, mas convencido a partir.

Esse paradigma segue sendo relevante e influente na cena brasileira de saúde mental, a despeito da ausência de validação científica de seus pressupostos. Tanto o Kardec brasileiro, Bezerra de Menezes foi também, como notou David Hess, o Freud nacional.

Alternativas e complementares

O prestígio social, político e militar das elites espírita e homeopática garantiu que as práticas de saúde defendidas por ambas tivessem espaço institucional garantido, ainda que relegado a pequenos nichos, às vezes combatidos, mas na maior parte do tempo, muito bem tolerados: no Brasil, títulos, diplomas e conexões sociais desde sempre falam mais alto do que adequação empírica e solidez metodológica, mesmo nas ciências.

Até as duras leis contra curandeirismo do Código Penal republicano de 1890 tinham mais um caráter de preocupação corporativa e de classe (dando livre passe a práticas mágicas ou absurdas, desde que exercidas por profissionais diplomados e licenciados) do que científica ou, mesmo, objetivamente, com a saúde pública.

A brecha epistêmica deixada pela complacência da academia e pela aceitação formal da homeopatia (finalmente acolhida pelo Conselho Federal de Medicina em 1980) fica evidente neste trecho do livro “Homeopatia e Espiritismo” (1991), de Lauro S. Thiago, que estabelece uma identidade entre o fluido universal do espiritismo e o modo de ação dos medicamentos homeopáticos:

“…o fluido universal, elemento necessário de ligação entre Espírito e matéria, suscetível de modificações inumeráveis, condicionando modalidades diversas de fluidos que em tudo intervêm, tanto na grandeza infinita dos espaços estelares, como na grandiosa pequenez dos turbilhões atômicos”.

Não é preciso muita imaginação para interpretar a energia universal do reiki, o qi da acupuntura e toda forma de eflúvio vitalista associado a pseudoterapias energéticas como facetas desse fluido universalmente adaptável do complexo espírita/homeopático. Mesmo objetos voadores não-identificados e abduções alienígenas podem ser lidos como perturbações de fluidos que “intervêm na grandeza infinita dos espaços estelares”, e a “consciência quântica” como os que atuam na “pequenez dos turbilhões atômicos”.

Pela brecha de poucos, todos. Isso ajuda a explicar o abraço ecumênico das pseudociências durante a redemocratização: tanto o prestígio do espiritismo exerce atração sobre outros sistemas vitalistas  com pretensões científicas, quanto esses sistemas ganham simpatia à medida em que espíritas veem neles validações independentes das suas ideias.

Nenhuma dessas coisas, claro, tem qualquer relação necessária com o espiritismo como religião ou sistema ético: são fruto de contingências históricas muito específicas da cena brasileira.

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