O pavão é desafiado a salvar a direita depois das derrotas dos Bolsonaros e de Trump. Por Moisés Mendes

Atualizado em 4 de novembro de 2026 às 23:36
Flavio Bolsonaro Trump
O pré-candidato a presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução/X (@FlavioBolsonaro)

Não é uma dúvida qualquer: onde Tarcísio de Freitas escondeu o boné vermelho de Trump, que pôs na cabeça em janeiro do ano passado, quando da posse do fascista agora massacrado nas urnas? Em que canto foi jogado o boné da adesão festiva de Tarcísio ao sabotador da economia brasileira?

O governador é um caso único, com ou sem boné. O bolsonarismo nunca teve uma figura que merecesse o mesmo tratamento agora dispensado pela velha direita a Tarcísio de Freitas. Os bolsonaristas sempre foram assimilados como excrescências, por falta de algo melhor para representar o conservadorismo antilulista.

Os jornalões, desorientados com a virada de Lula, já vestem Tarcísio com trajes especiais para a campanha antecipada. Destacam que era tenente e engenheiro de boa formação militar, que participou da missão do Exército brasileiro em nome da ONU no Haiti e foi burocrata de Estado ‘até no governo Dilma’.

Bolsonaro e os seus filhos eram ogros, mas ogros necessários. Tarcísio é o pavão que os perdedores tentam vender como belo, imponente e com quase nenhum defeito. Mantêm, principalmente, a farsa de que, por ser mais fofo, pode alargar a base da direita antes dependente dos Bolsonaro. E que daqui a pouco ele estará livre até dos vínculos com a família que o inventou.

Depois de Fernando Henrique Cardoso, nem Alckmin, nos seus tempos de tucano, nem Serra e muito menos Aécio foram tão apresentados à sociedade como figuras quase perfeitas da direita quanto Tarcísio. Está nas capas todos os dias, nunca com informações desabonadoras.

Repórteres atrevidos ainda fazem passar por debaixo das pernas das altas chefias notícias como a que a Folha publicou na semana passada: as polícias Civil e Militar de Tarcísio matam uma pessoa a cada 12 horas e 16 minutos.

Entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, as polícias provocaram 2.679 assassinatos. Os mortos são, em sua maioria, jovens negros e pobres. Os números provam que Tarcísio autorizou a polícia a ser mais violenta e a matar.

A média de mortes, no período do governo dele, é 70% maior do que a registrada no último ano do governo do seu antecessor, João Doria. Setenta por cento de aumento.

Tarcísio
Na posse de Trump, Tarcísio de Freitas postou foto com boné que possui o lema do “MAGA”. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Enganam-se os que acham que essa estatística, nunca registrada em SP, pode ser desabonadora para a imagem de um candidato à liderança da nova direita sem Bolsonaro.

Tarcísio já está consagrado como um falso moderado, e o eleitor que o escolhia, nas pesquisas feitas com os muitos nomes da direita antes da definição da candidatura de Flávio Bolsonaro, sabe de quem se trata.

Tarcísio é o governador deles que mais fala em anistia para os golpistas, com Bolsonaro na primeira fila. É o propagador nacional das escolas cívico-militares que se espalham pelos Estados.

O pavão da direita adotou posições mais do que apenas controversas – porque assumidamente de extrema direita –, como quando defendeu o fim da obrigatoriedade da vacina da Covid para servidores estaduais, em nome da liberdade de escolha.

Uma lei estadual anistiou quem havia sido multado, durante o governo de Doria, pelo descumprimento de medidas sanitárias no surto de Covid, entre os quais os que se negavam a usar máscaras. Mais de 10 mil pessoas foram anistiadas, num gesto negacionista de apoio do governador a transgressores que ameaçaram a saúde pública.

Tarcísio só terá contra si, como já começa a acontecer, a sabotagem de setores do bolsonarismo raiz que o consideram traidor de Bolsonaro, ao admitir que já pensa em 2030. O pavão terá que se entender com o pai, os filhos e com Michelle.

Jair, Flávio e Eduardo não irão engolir a viabilização precoce da candidatura de um Tarcísio harmonizado pela Globo e desgarrado dos seus mentores. Principalmente Flávio, empurrado pelo pai para uma disputa em que era, desde o começo, o pior de todos os candidatos do bolsonarismo. A derrota de Trump os empurra para o relento, e sem boné.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/