Terrorismo é tachar Lula de radical. Mas imprensa fez mentira virar “verdade”. Por Leoni Siqueira

Lula: radicalmente incômodo (foto: Pedro Zambarda)

Por Leoni Siqueira

Apesar do número enorme de pessoas que, com a absolvição de Lula, se apavoram com a possibilidade da “volta do comunismo”, como o Samuel Borges (@SamuelSilvaFB) lembrou no Twitter, o governo Lula não chegou nem a ser social-democrata. Ficou mais próximo de um liberalismo social.

E é fácil provar. Lula nunca bateu de frente nem com os bancos nem com o agronegócio. Ao contrário. Deu inúmeros incentivos, subsídios, desonerações, perdões de multas etc. Os donos do capital não podem reclamar da cordialidade, nem da boa vontade do Presidente.

Lula não taxou grandes fortunas — nem ameaçou fazê-lo –, não acelerou o processo de reforma agrária, e nunca, nem em seus mais ousados sonhos, propôs nada que desagradasse o grande capital. Teve até um grande empresário como Vice-Presidente.

Lula só tentou dar um coração ao capitalismo, com algumas políticas compensatórias para os mais pobres. Deu a eles alguns direitos básicos e um mínimo de dignidade. Essa é a radicalidade do ex-presidente? Sendo sincero: alguém pode elencar as atitudes radicais tomadas por Lula em seus governos? Alguém lembra de pelo menos uma?

O “radical” Lula com líderes do “mundo livre”. Pergunta para eles quem é radical, se o petista ou Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert)

Então, por que forjar para ele essa fama de radical e extremista? Por que incutir na população o medo a um presidente que trouxe tanta prosperidade, inclusive aos mais ricos, e alguma justiça social ao país?
Essa é a parte cruel e torpe da campanha da grande mídia.

Lula, que poderia ser o perfeito “candidato de centro”, conciliador, para comandar a tal da Frente Ampla, é perigoso porque abre as defesas da direita privilegiada. Ele deixa clara a indignidade da vida do povo, relembra em seus discursos que tem muita gente que passa fome no nosso país, que a concentração de renda é imoral e que vem crescendo, especialmente nesses tempos neoliberais.

Mesmo sem querer derrubar o sistema, nem pensar nisso, essa pequena brecha no muro de proteção da fortaleza capitalista assusta os donos do mundo. A crueldade do sistema tem que se tornar invisível para evitar uma convulsão social mais que justa, necessária.

A narrativa sobre a vida, a política e a economia têm que ser única e indivisível: não temos um mundo perfeito, mas é o mundo possível. Qualquer mudança tornaria tudo ainda muito pior. “Olha a Venezuela!” Como disse Margaret Thatcher: “There is no alternative.” (Não existe alternativa). Ou seja, é melhor já ir se acostumando.
O que Lula dá ao povo que mais preocupa os poderosos é a esperança, a possibilidade de futuro. Na luta de classes, há algum tempo os poderosos roubaram as armas de seus adversários.

O projeto neoliberal é a vitória acachapante dos exploradores, por imobilização. Todos os direitos dos trabalhadores, conquistados com sangue no século passado, estão sendo metodicamente retirados pelas “necessárias reformas” (necessárias para quem, não é mesmo?) para aumentar a competitividade dos negócios. E esses direitos são quase demonizados, como entraves ao progresso. Nesse processo, só resta aos trabalhadores, nos nossos dias, torcer para que o pouco que ainda resiste não lhes seja roubado muito rapidamente. A utopia possível é retardar a total submissão aos senhores da grana.

O governo Lula apontou para a esperança, para a alternativa, para algo além da derrota anunciada e inevitável. Isso é imperdoável para as elites. Nessa época da pós-política, eles já convenceram boa parte do Congresso que a modernidade é sinônimo de austeridade, de indiferença social, de liberdade total para o capital. Quem discorda desse discurso vira inimigo mortal, terrorista, extremista, polarizador.

O único extremismo que se pode atribuir ao Lula é o de achar, contra as lendas do reino encantado do mercado, que as pessoas são mais que instrumentos para a produção, que merecem comer, descansar e até (terrorista!) fazer um churrasco e tomar uma cerveja gelada.

Lula não prega (nem deseja) a Revolução, nem a socialização dos meios de produção, nem o fim da propriedade privada da terra, como muita gente da esquerda deseja. Nem mesmo, como o trabalhismo inglês de Jeremy Corbyn, proporia limitar os salários dos executivos a uma relação de vinte para um com seus empregados, invadindo a sacrossanta “liberdade” do ambiente de negócios. E a grande mídia sabe disso. Ela sabe que Lula não tem nada de extremista. Ela ouviu, no seu discurso pós absolvição, ele dizendo que fortaleceria os sindicatos porque um capitalismo forte precisa desse embate. Ela sabe que Lula só deseja acoplar um coração ao sistema. Sabe que não há nenhum risco econômico, que os lucros do capital não estão ameaçados. Sabe que ele é um democrata, ao contrário do atual ocupante da presidência.

O que ela não pode tolerar em Lula é a radicalidade de uma fresta de esperança.

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