Troque o seu beagle por uma criança pobre

beagle

 

O resgate dos beagles do Instituto Royal foi um ato heróico. Duzentos cachorrinhos foram libertados por ativistas que estavam acampados defronte ao laboratório. Alguns deles tinham sinais do que seriam maus tratos. Num vídeo, um deles aparece com cortes na língua e picadas na pele.

O beagle é o animal mais usado na indústria de cosméticos. Isso se deve a alguns fatores: existem mais trabalhos científicos com essa raça, o que favorece a comparação dos resultados; características genéticas muito semelhantes entre os indivíduos; são dóceis. Nenhum país do mundo proíbe a utilização deles em experimentos.

A maioria dos ativistas era de veganos. Um deles, Leandro Ferro, disse que a mensagem que eles queriam passar era de que os animais não são objetos. “É preciso repensar o uso de animais na alimentação, no vestuário, nas diversões”, afirma. Segundo Leandro, seu grupo procurou todas as instâncias legislativas antes de partir para a ação.

“O Ministério  Público tem se mostrado bastante ineficiente perante os anseios dos ativistas. O caso vem sendo denunciado há mais de um ano. Se em um ano ele não conseguiu nada de concreto com as provas que tinha, não seria nessa semana que ele iria conseguir”, declarou.

O Ministério de Ciência e Tecnologia soltou um comunicado segundo o qual o Royal tem permissão para usar os animais. A proprietária avisou que vai processar os manifestantes e mostrou laudos provando que estava tudo em condições de operar.

Houve uma mobilização gigantesca na Internet em torno dos cachorros. O Anonymous entrou na briga. Esse tipo de coisa não é incomum no exterior. Há vários sites internacionais de proteção aos beagles. Recentemente, um laboratório na Itália também teve suas cobaias libertadas.

Ninguém é a favor de que se maltratem os animais. Essa luta está na agenda do dia. Ninguém pode achar que bichos devam ser torturados para se obter cosméticos. É um debate que precisa ser travado. É uma luta legítima. E se for para criar uma vacina para seu filho? Se a experiência for com um rato, e não com um beagle, tudo bem? E se for com uma criança? Alguns ativistas sugerem que se fizesse testes com pessoas.

E eu pensei aqui numa canção do Eduardo Dusek que fez sucesso nos anos 80. Chamava-se “Troque Seu Cachorro Por Uma Criança Pobre”. Um clássico.

Não faz muito tempo, o DCM falou do drama por que passam os Meninos do Morumbi. A ONG cuida de 600 crianças carentes e está endividada (o site é esse). Corre sério risco de encerrar as atividades. Flávio Pimenta, o fundador, está passando o chapéu para ver se levanta um dinheirinho. Já demitiram vários funcionários. Cada acordo fechado para um café da manhã com executivos de multinacional são comemorados como um dia de fôlego a mais.

Lembro da força titânica das redes sociais ao apoiar e gritar contra os abusos contra os cãezinhos. Lembro do rapaz que aparece num vídeo, esbaforido, com um bicho nos braços, chorando, triunfal. Na apresentadora Luísa Mell, tocada, em frente aos portões da Royal. É muito digno.

Mas passei em frente à sede dos Meninos do Morumbi e não ouvi nenhum tambor. Silêncio total. Não li nenhum post no Facebook sobre eles. Pode ser que feche e que aquela molecada volte à favela amanhã. Vai ver já fechou.

E ninguém está nem aí.

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