Vestiu a carapuça? Nikolas usa “nós” ao reagir a grito contra fascistas

Atualizado em 31 de outubro de 2026 às 14:17
Nikolas Ferreira
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Foto: Reprodução

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) usou a primeira pessoa ao responder a um lema antifascista em um vídeo de apoio ao boicote a empresários e artistas identificados com a esquerda. “Eles ficaram esse tempo todo dizendo: ‘Recua, fascista, recua’. E nós recuamos”, afirmou. A declaração integra sua defesa de que eleitores da direita deixem de consumir produtos e serviços de adversários políticos.

A formulação retoma a acusação em tom de ironia. Antes da frase, Nikolas reclama de pessoas que teriam chamado eleitores da direita de extremistas, nazistas e golpistas. Depois, apresenta o recuo como a decisão de não consumir nem fortalecer pessoas que, segundo ele, não compartilham seus princípios.

O deputado também recorreu ao termo no X, na quarta-feira (28), ao responder ao humorista Bruno Motta, que relatou o cancelamento de um trabalho por causa de suas posições políticas. “Os fascistas não querem sustentar mais vocês. Bem vindo a nova era, petista safado”, escreveu Nikolas.

O histórico de mensagens ambíguas

O conceito de “apito de cachorro” descreve uma mensagem com significados diferentes para públicos diferentes: aparentemente comum para parte da audiência, mas reconhecível como código por um grupo específico. Essa definição aparece no Observatório da Diversidade Discursiva, da USP. Ela permite distinguir mensagens cifradas do uso explícito e irônico de um rótulo político, como nas publicações recentes sobre boicotes.

Um antecedente de ambiguidade envolve Kamala Harris. Em julho de 2024, diante da possibilidade de ela disputar a Presidência dos Estados Unidos contra Donald Trump, Nikolas publicou: “Se for a Kamala, vai ser chocolate”. O duplo sentido da expressão está no fato de ser uma previsão de vitória folgada, como na gíria do futebol, ou uma referência racista à então candidata negra.

A atuação do parlamentar também foi examinada em reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em agosto de 2024, que reuniu avaliações de pesquisadores sobre ataques a minorias e mensagens cifradas para públicos radicais. Ouvida pelo jornal, a pesquisadora Liriam Sponholz afirmou que ataques baseados em gênero e raça podem ser usados para captar votos, impulsionados pela dinâmica das plataformas digitais.

Outro episódio ocorreu em setembro de 2025, após o assassinato do influenciador conservador Charlie Kirk. Nikolas compartilhou a imagem de um anjo acompanhada de uma frase em inglês que, em tradução, diz: “Não faça as pazes com o mal, destrua-o” e também publicou a frase “Seja a extrema-direita que eles tanto têm medo.”. As publicações foram vistas por internautas como um “apito de cachorro” e associaram o lema à linguagem de guerra religiosa de grupos conservadores e armamentistas dos Estados Unidos.

Na manifestação recente sobre boicotes, Nikolas separou a recusa de consumo da suspensão de doações a pessoas vulneráveis. Enquanto defendeu que apoiadores escolham onde gastar o dinheiro, afirmou que deixar de ajudar alguém por causa do voto é errado e contraria uma atitude cristã.

Consequências políticas e eleitorais

A responsabilização jurídica exige identificar uma conduta prevista em lei. O artigo 287 do Código Penal pune a apologia pública de fato criminoso ou de autor de crime. Já a Lei 7.716/1989 pune a incitação à discriminação racial e a propaganda com suástica destinada à divulgação do nazismo. Os crimes do artigo 20, quando cometidos em redes sociais, têm pena de dois a cinco anos de prisão e multa. O enquadramento depende da conduta demonstrada e não decorre automaticamente do emprego de um rótulo político.

Para parlamentares, o artigo 55 da Constituição prevê perda do mandato por quebra de decoro, mediante processo e decisão da respectiva Casa legislativa. A cassação nessa hipótese é causa de inelegibilidade por oito anos. A responsabilização por declarações também exige examinar a imunidade parlamentar e seus limites, incluindo a relação da fala com o exercício do mandato.

Um antecedente de consequência política concreta é o de Roberto Alvim, então secretário especial da Cultura. Em janeiro de 2020, ele foi demitido pelo então presidente Jair Bolsonaro após reproduzir trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, em um vídeo oficial. O secretário foi exonerado em 17 de janeiro daquele ano.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!