20 furadas épicas da imprensa brasileira em 2015. Por Pedro Zambarda

 

Crise política, abertura de impeachment, pauta reacionária de Eduardo Cunha no Congresso, retração do PIB, voos de Aécio Neves com celebridades e figurões da imprensa, corrupção na Sabesp, Lava Jato, assunto não faltou em 2015. Mesmo assim, o jornalismo conseguiu furos que se provaram enormes furadas, além de teses catastróficas que não se provaram verdadeiras.

No dever de informar, a mídia brasileira dominou a arte de prever acontecimentos sem embasamento, prestando um desserviço aos seus leitores. Selecionamos as maiores furadas e profecias erradas publicadas neste ano.

1. As capas da Veja tentando colocar Lula na cadeia

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A Veja se consagrou em 2015 como a pior revista semanal e fez isso batendo à beça em Lula. A capa de 29 de julho tentou enquadrar o ex-presidente com base na delação do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, que desmentiu as informações após a publicação da edição. No dia 4 de novembro, conseguiu colocar Lula num uniforme de presidiário.

O ex-presidente não foi preso e entrou na Justiça.

2. O furo de Lauro Jardim sobre o filho de Lula no Globo – que era uma furada

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Ex-titular da coluna Radar da revista Veja, Lauro Jardim saiu do seu cargo de editor-executivo na editora Abril para assumir uma coluna no jornal O Globo. No primeiro texto, em 11 de outubro, Lauro já estampou a manchete sobre a operação Lava Jato: “Baiano diz que pagou contas do filho de Lula”. O operador desmentiu o colunista, falando que passou dinheiro para o pecuarista José Carlos Bumlai. O Globo só admitiu a mentira em 8 de novembro, pedindo desculpas a Lula e Fabio Luis Lula da Silva.

3. Outra furada de Lauro sobre a suposta viagem de Eduardo Cunha a Cuba

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Nem depois do Natal Lauro Jardim deixou de publicar uma barrigada no Globo. Ele divulgou no dia 26 de dezembro que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tinha embarcado para Cuba para passar o ano novo. O texto trazia uma foto compartilhada pela enteada de Cunha no Instagram com uma bunda original e um dedo em riste do perfil de Kendall Jenner, irmã da socialite Kim Kardashian. Cunha desmentiu a coluna na sua conta do Twitter, afirmando que estava no Rio de Janeiro. Ele ainda teve tempo de chamar Lauro de “colunista pilantra” e disse que a Globo é petista. O jornalista, que já tinha passado pela informação furada do filho de Lula, só publicou uma atualização no texto de Cunha em Cuba, sem dar a errata real.

4. As capas de todas as revistas semanais, exceto Carta Capital, prevendo o impeachment

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Precisa comentar? Não é necessário, basta olhar três capas. A maioria foi publicada entre outubro e novembro de 2015. As revistas brasileiras se uniram para apostar no afastamento e erraram todas.

5. As reportagens mostrando Eduardo Cunha como “homem forte” contra Dilma

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Mal sabiam os jornalistas envolvidos nestas reportagens que Eduardo Cunha receberia acusações graves de recebimento de propina na operação Lava Jato vindas da Suíça. A capa da Veja, publicada em 25 de março, não traz uma linha de qualquer acusação que Cunha recebeu ao longo de sua trajetória política como lobista e ainda tece elogios por sua atuação nos bastidores. Naquele mesmo período, Joice Hasselmann, a apresentadora da TVeja que plagiou mais de 60 textos, fez uma entrevista igualmente bajulatória. Já a revista Época, em 17 de outubro, tentou dar poder ao presidente da Câmara perto do período em que ele abriria o processo de impeachment.

Cunha terminou 2015 como um morto vivo.

6. A quantidade de vezes em que Diogo Mainardi e Mario Sabino profetizaram a prisão de Lula

Criado o blog Antagonista no final de 2014, Diogo e Mario dedicaram-se diariamente a fazer torcida contra Lula, Dilma e o PT. Perdeu-se a conta da quantidade de vezes em que eles profetizaram a prisão do ex-presidente, a delação premiada de Delcídio — fora a quantidade enorme de artigos com informações erradas sobre pedaladas fiscais, entre outras barbaridades. E eles prometem continuar com tudo em 2016.

7. A tese furada de Carlos Alberto Sardenberg sobre a crise da Grécia

Para o comentarista da CBN e do Jornal da Globo, Lula e Dilma foram os responsáveis por convencer o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, a adotar o programa antiausteridade em 2015. A maluquice foi comentada no dia 2 de julho na rádio CBN. Lula utilizou seu Facebook para responder ao jornalista econômico.

8. A República que Marcelo Odebrecht não derrubou

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Reportagem de capa de 20 de junho da revista Época estampou a prisão do empresário Marcelo Odebrecht, com uma reportagem que dava como certa uma delação premiada do empreiteiro que “implodiria” a república brasileira como conhecemos. Tudo cascata. O redator-chefe Diego Escosteguy alardeou no Twitter sobre o conteúdo “bombástico” do texto. A república não caiu, mas a Época continua indo para o buraco.

9. As capas querendo colocar Michel Temer no lugar de Dilma

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Michel Temer se tornou queridinho da grande imprensa, como Eduardo Cunha foi enquanto era conveniente. A Veja apostou que ele e seu partido já teriam um plano para a sucessão, enquanto o PMDB se perde em uma disputa interna. Mas quem namorou de verdade Temer em 2015 foi a revista ISTOÉ, concedendo-lhe pelo menos quatro capas no ano. O ápice foi em 23 de dezembro, quando o veículo da editora Três deu o prêmio de “Brasileiro do Ano” para o “vice decorativo” de Dilma. Ele terminou o ano como autor de cartas medíocres.

10. A torcida pelo fim da crise da Sabesp

Os jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo noticiam com certo otimismo a elevação do nível do sistema Cantareira para perto de 29%, o que significaria a saída do volume morto após dois anos de crise hídrica. No entanto, o que a grande imprensa omite é que foram gastos quase R$ 30 milhões para transferir água do Rio Guaió, e de outras fontes, pela Sabesp e que isso não impediu que as reservas do Alto Tietê caíssem pra cerca de 20%. O Ministério Público abriu processo contra o DAEE, a Sabesp e o governo Geraldo Alckmin por improbidade administrativa no dia 14 de dezembro. A crise hídrica não acabou e a torcida da mídia omite acusações graves de corrupção e de formação de cartel entre as empresas terceirizadas, conforme apurou o próprio DCM em sua série de reportagens sobre o tema.

11. A tentativa de transformar a ida de Aécio, Caiado e outros até a Venezuela num fato importante

Aécio Neves, Aloysio Nunes e Ronaldo Caiado bem que tentaram, com amplo espaço na grande imprensa, visitar os “presos políticos” na Venezuela, mas foram barrados por um protesto de chavistas. Disseram que foram “sitiados”, deram meia volta e não ficaram em Caracas para ver o que aconteceria. Caiado jura que filmou no seu celular um manifestante querendo quebrar o ônibus em que estavam. Ninguém nunca viu  tal gravação.

12. A tentativa de transformar o fechamento de 94 escolas em “reorganização”

O governo Alckmin teve espaço nos telejornais, nas revistas e nos jornais para defender seu projeto de “reorganização” de escolas estaduais. No entanto, isso não impediu que um áudio de uma reunião entre 40 dirigentes de educação vazasse para o site Jornalistas Livres, com uma verdadeira declaração de guerra contra estudantes que começaram a ocupar as 94 escolas. Mobilizados, os alunos entraram em mais de 200 escolas e derrotaram a iniciativa do governo.

Foi mais uma tentativa da mídia de dar voz a Alckmin que não deu muito certo.

13. O acidente no Minhocão que virou culpa da ciclovia

A imprensa noticiou em peso que o zelador Florisvaldo Carvalho Rocha, de 78 anos, teria morrido na ciclovia sob o Minhocão em agosto deste ano. O problema é que uma perícia da Polícia Civil provou que o ciclista que o matou passou no corredor de ônibus, e não na faixa vermelha desenhada pelo petralha Fernando Haddad. Foi mais uma tentativa mal-sucedida de tentar culpar o prefeito em cima de uma informação incorreta.

Os antipetistas ainda  juramde pé junto que o zelador morreu na ciclovia, infelizmente.

14. A falácia do processo do Bill Gates contra a Petrobras

Em tempos de Lava Jato, uma notícia de que a Fundação Bill & Melinda Gates estaria processando a Petrobras seria uma bomba, certo? A imprensa internacional e a brasileira caíram neste factoide em 25 de setembro, que foi desmentido pelo próprio fundador da Microsoft. Bill Gates foi visitar Dilma Rousseff em uma viagem até Nova York para pedir desculpas pelo erro de informação.

Quem estava processando a Petrobras era um investidor externo de sua empresa, por perdas em ações depois das operações da Polícia Federal. Poucos veículos brasileiros deram destaque ao desmentido de Gates.

15. A mentira de que a “Paulista fechada atrairia o caos”

O prefeito Fernando Haddad decidiu em 2015 abrir a Avenida Paulista para os pedestres e fechar para carros aos domingos, uma medida revolucionária que incentiva um contato mais humano com a cidade. O Instituto Datafolha em novembro indicou que pelo menos 47% dos paulistanos aprovam a medida, contra 43%. Mesmo com protestos dos blogueiros da revista Veja e do senador tucano José Serra, a Paulista aberta segue como um sucesso.

16. O sucesso das ciclovias em São Paulo, contrariando setores da imprensa

A mídia brasileira bem que tentou, mas não conseguiu conter a aprovação de 56% dos paulistanos a respeito das ciclovias segundo o Datafolha neste final de ano. Mesmo com o blogueiro Reinaldo Azevedo chamando os usuários de “talibikers” ou de “fascistas sobre duas rodas” e profetizando o caos, parece que a galera está gostando de pedalar e está usando menos o carro na maior metrópole brasileira.

17. Redução das Marginais em São Paulo que evitou mortes, não provocou catástrofes

Haddad deve causar dor de cabeça nos seus críticos. O prefeito reduziu as velocidades máximas das pistas expressas nas Marginais Pinheiros e Tietê de 90 km/h para 70 km/h em julho de 2015. No mês de setembro, a medida reduziu em 36% os acidentes com vítimas de acordo com a CET. Isso deve ter deixado os comentaristas da Jovem Pan com os cabelos em pé.

18. A cobertura convocatória dos protestos coxinhas que não evitou seu esvaziamento

A GloboNews cobriu em tempo real as manifestações pró-impeachment em São Paulo e em Brasília com os bonecos inflados de Lula e Dilma, com adesão de todos os veículos da grande imprensa. Mesmo com todos os holofotes, os protestos de 13 de dezembro só reuniram 30 mil pessoas na Avenida Paulista, com direito a olavetes e manifestantes pró-ditadura militar dividindo caminhões de som com o mítico líder do MBL, Kim Kataguiri. O número de manifestantes foi muito inferior aos 210 mil do dia 15 de março. As estatísticas são do DataFolha e a campanha da mídia, pelo visto, não funcionou.

19. Uma década depois do mensalão do PT, o mensalão mineiro teve a primeira condenação

Embora seja ainda em primeira instância, o ex-governador tucano Eduardo Azeredo foi condenado a 10 anos de prisão pelos crimes praticados no chamado mensalão mineiro, esquema de caixa dois que envolveu o publicitário Marcos Valério em 1998. A mídia não profetizou nada a respeito deste processo de Azeredo e só deu capa para os 10 anos do mensalão que culminou na prisão de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. Para a grande imprensa, o caso dos tucanos é “menor”, o que é mais uma furada de 2015.

20.  A profecia furada da separação entre Dilma e Lula

Para Lauro Jardim, o mesmo repórter da furada sobre o filho de Lula, o ex-presidente estaria longe de Dilma desde março de 2015, quando ele ainda trabalhava na Veja. Ricardo Noblat sentenciou em setembro no Globo que Lula “desembarcou do governo”. De onde eles tiraram tais informações eu não faço ideia, mas no dia 4 de dezembro o ex-presidente disse em sua fanpage de Facebook que “Dilma fica”, contra o processo de impeachment aberto por Eduardo Cunha.

Se isso for indício de separação, me parece um divórcio muito adocicado. Diogo Mainardi, aquele que faz torcida em seu Antagonista, acha que Dilma Rousseff quis provocar Lula ao transformar Leonel Brizola em herói nacional neste final de ano. Acredita nisso quem realmente quiser acreditar.