Serrano: “Supremo tem operado contra a Justiça do Trabalho e a esquerda está quieta”

Jurista teceu críticas aos esquerdistas e progressistas após a vitória de Lula

Atualizado em 3 de março de 2024 às 14:16
Pedro Serrano. Foto: Reprodução/DCMTV/YouTube
Pedro Serrano. Foto: Reprodução/DCMTV/YouTube

O jurista Pedro Serrano, que defende punições duras para golpistas do 8/1, fez críticas ao Supremo Tribunal Federal sobre sua investida contra os direitos trabalhistas. Para ele, considerando essa situação do STF, a esquerda precisa retomar suas origens e o trabalho de base.

Mesmo defendendo uma ação de proteção do STF e das garantias do Estado Democrático do Direito, o professor constitucionalista da PUC-SP acredita que esse não deve ser o horizonte das esquerdas, mesmo após a terceira vitória eleitoral presidencial de Lula.

Confira os principais trechos da entrevista concedida ao DCMTV.

A falta da identidade da esquerda hoje

Isso não é um problema do Lula. Isso não é um problema do [Poder] Executivo. É um problema do Estado brasileiro. O primeiro problema é o próprio [Poder] Judiciário. O Supremo tem operado contra a Justiça do Trabalho.

A OAB de São Paulo está passando inclusive por cima do OAB Nacional nesse assunto. Ela iniciou essa semana o movimento para chamar atenção nesse aspecto. E nós estamos quietos.

Acho que tem que fazer uma crítica ao Supremo. Nós estamos defendendo a democracia. No entanto, não podemos perder a nossa identidade nisso. A nossa identidade como esquerda não é defesa da democracia. Defesa da democracia é uma necessidade da conjuntura.

A identidade da esquerda é lutar pela justiça social. A nossa identidade a reduzir as distâncias entre as classes no Brasil. Não podemos perder essa identidade por conta de estar no governo.

A imprensa corporativa usa de qualquer coisa para ir contra a gente. Nós não devemos ficar nos pautando por isso. A gente tem esse vício.

Eu me lembro do tempo dos primeiros governos do PT. Tinha essa coisa: qualquer coisa que a Veja falasse gerava um pânico em Brasília. A revista Veja era totalmente contra nós. 

Nós não podemos nos pautar por isso. Temos que pautar o nosso caminho. Eu não sou filiado ao PT, mas eu tenho um imenso orgulho de participar do mesmo tempo histórico da militância do Partido dos Trabalhadores.

Recuperação de um horizonte

Acho que são os heróis desse país, a militância do PT. Esses caras enfrentam. Eu me lembro na década de 80, me filei no começo daquela década, havia uma incompreensão e a mídia tratava a gente como “bandido”, como “marginal”.

E a turma foi indo e, em cada sindicato, em cada núcleo, em cada fábrica, em cada bairro, foi juntando gente. Foi juntando com apoio das comunidades de base, das comunidades eclesiais da igreja.

Que nem água em uma pedra. Ela vai pingando na pedra até quebrar a pedra, entendeu?

A gente tinha um caminho ali, tínhamos um horizonte. Temos que voltar a ter horizonte. Não tô falando para voltar ao radicalismo do PT infante. Não é isso. Mas nós precisamos voltar a ter um caminho.

Há um pragmatismo tóxico hoje na esquerda. E ele é tóxico mesmo. Tudo virou negócio. Tudo virou cargo. Tudo virou disputa por poder menor. E a gente está esquecendo do grande horizonte. Estamos esquecendo que temos que transformar a sociedade.

Burocratizaram muito. Você vai hoje em dia no encontro do PT ou do PSB, desses partidos de esquerda em geral, e parece o encontro do partido democrata. Eu já fui muito até Nova York. O encontro o partido democrata lá é muito parecido.

Me lembro de participar na década de 80 e começo dos 90 em reuniões no PT de São Bernardo. Você tinha um lugar muito simples na sede do PT. Tinha umas caixas de som para rua e as pessoas ouviam o debate. Não tinha o que esconder.

Precisava voltar a ter um pouco desse espírito. 

A radicalização da extrema direita hoje e seus elementos

O Milei fala em vender criança, fala em vender órgão, fala em vender rim. O que os anarcocapitalistas propõem agora é a radicalização desumana da mercadoria, a universalização da mercadoria. É uma tendência do capitalismo. Eles estão enxergando o que Marx enxergou muito bem antes.

Para Marx, o capitalismo é a universalização da mercadoria. Fazer tudo virar mercadoria. O anarcocapitalismo é o estágio final disso. É talvez o grande elemento da crise do capital. Você radicaliza a universalização da mercadoria.

O Brasil consegue conciliar essa noção com um tradicionalismo cristão. O cara consegue ser cristão, vai na igreja e dá dinheiro lá para o pastor. 

Eles pegaram só a parte da tradição religiosa e volta para a Idade Média, esse tipo de coisa. E quando você vai pro ambiente neopentecostal, isso me preocupa. Você passa a ter uma teologia da junção. Eu posso ser traficante de droga, posso ter milícia que mata gente, que mata criança na periferia. Posso ser qualquer coisa.

Porque se eu vou no culto, se eu rezo, se eu pago meu dízimo. tem a graça de Deus. É a radicalização daquele antigo debate no ambiente da teologia. Diz-se que a salvação se dá pela fé ou pela ação.

Só que é uma radicalização da ideia de fé. Uma extrema radicalização. Nunca se pensou isso dessa forma. Posso ser o pior ser humano do planeta, posso ser Hitler, se eu vou lá no no culto e dou meu dízimo, tenho a graça de Deus.

É o desvio absoluto entre religião e conduta. E aí essa gente passa a atuar na política. Eles têm uma proposta teológico-política.

O Estado tem que ser o Estado da unção, o Estado que tem a graça de Deus. Pode ser um Estado que mate e que torture, que pratique genocídio. Não tem problema se ele tem a unção de Deus.

Por isso há o apoio de Israel e a tolerância que Israel mate gente. Não é que eles desconhecem que há genocídio de Israel. É porque o povo de Israel é o “povo escolhido por Deus”, “ungido por Deus”.

Temos que tomar cuidado com essa lógica. Tem que conhecer, tem que fazer a crítica, tem que mostrar aos próprios fiéis isso.

Nós ainda estamos no tempo de fazer a crítica aos neopentecostais pela teologia da riqueza deles.

Veja a live na íntegra.

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