Os brasileiros invisíveis. Por Moisés Mendes

“Brasil terra índigena” – Foto: Scarlett Rocha/ Cimi

Se disserem que há hoje mais índios do que moradores da cidade em manifestações nas ruas de Brasília, não haverá exagero. Os índios acamparam em Brasília para defender suas terras, seu modo de vida e suas memórias.

Proporcionalmente, em todo o Brasil, há mais índios em manifestações na defesa do que é deles do que brancos urbanos na defesa da democracia. Pode parecer constrangedor para os brancos, mas é a realidade.

O debate do que chamam de marco temporal no Supremo é mais incompreensível para os brasileiros do que a ascensão dos talibãs no Afeganistão.

O brasileiro acha que sabe tudo sobre os talibãs de Cabul. Mas percebe que não sabe quase nada sobre os nossos talibãs, grileiros, garimpeiros e fazendeiros interessados nas terras dos índios.

O marco temporal é a usurpação dos direitos dos índios; sob o argumento do agro pop de que eles só terão garantia legal de que a terra é de fato deles se provarem que estavam ali em 1988, quando a Constituição foi promulgada.

O marco temporal é a arma dos brancos para ‘legalizar’ o que já existe há séculos e que foi apenas acelerado sob o governo Bolsonaro; a ação deliberada de destruição do que é deles, sempre foi deles e deveria continuar sendo.

No caso gaúcho, é interessante observar como a imposição de interesses (aliado ao abandono do setor público) acelera a degradação da vida dos kaingangs, por exemplo.

Já no final dos anos 70, quando os povos da reserva da Guarita, no norte do Rio Grande do Sul, eram chefiados por um cacique chamado Sebastião Alfaiate, os gaúchos foram descobrindo o que ainda estava encoberto.

Perceberam que a miséria na Guarita; o arrendamento clandestino de pedaços de terra e outros desmandos levavam à divisão de classes na reserva.

Sim, a Guarita chefiada por Alfaiate tinha índios ‘ricos’ (que desfrutavam dos ganhos com arrendamentos aos brancos e da proximidade com o cacique); índios remediados e índios pobres, principalmente entre a minoria guarani.

Alfaiate tinha a sua polícia, como a Abin de Bolsonaro, tinha a proteção de políticos da região e desfrutava da imunidade dos inimputáveis. Conheci Alfaiate em 1978, com sua Ford 100, quando ele ostentava; enfiava a mão no bolso e tirava maços de dinheiro graúdo.

Reportagens recentes mostram que áreas indígenas em todo o país estão sendo favelizadas, ao assumir uma espécie de imitação das áreas urbanas onde vivem os expulsos para morros e periferias.

A Guarita de Sebastião Alfaiate fez com que, já nos anos 70, o marco temporal informal dos brancos transformasse parte da área em lavouras invadidas pela agricultura intensiva.

Na maioria das vezes, eram miseráveis brancos disputando espaços com os indígenas, em ambientes tensionados que poderiam levar a confrontos como o acontecido entre os índios e os colonos minifundiários invasores de suas terras em Nonoai, no final dos anos 70.

Continuam existindo tantos conflitos no sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul, no esforço dos índios para manter ou resgatar suas terras, quanto no Norte.

Mas aqui os índios são ainda mais invisíveis e dificilmente aparecerão no Jornal Nacional. Porque aqui a nossa Amazônia. Sem o charme e a mitologia da maior floresta tropical do mundo, é a Guarita, com 23 mil hectares. Tão invisível quanto seus moradores.

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Foi perto da Guarita, na parte que pertence ao município de Redentora, que encontraram morta no dia 4 de agosto a menina kaingang Daiane Griá Sales, de 14 anos. Estava nua e pode ter sido estuprada e estrangulada.

Os bichos do mato comeram partes do corpo de Daiane. Os suspeitos estão presos, mas os brancos da cidade não sabem de quase nada de Daiane, do crime e de como pode ter sido sua vida na reserva. E se fosse uma menina branca do Moinhos de Vento, o bairro dos ricos de Porto Alegre?

Foi da Guarita o primeiro índio gaúcho a ingressar numa universidade, Neri Kãme Sí Ribeiro, que em 1981 passou a frequentar o curso de Letras da Unijuí. Quantos mais conseguiram e conseguirão entre os 7 mil moradores da Guarita? Entrevistei Neri como calouro, logo depois do vestibular.

O primeiro índio com doutorado no Estado foi Bruno Ferreira, então com de 53 anos, em 2000, com tese defendida na Ufrgs sobre o papel da escola nas comunidades kaingangs.

A percepção geral é de que os brancos fazem pouco para proteger os índios dos próprios brancos. Porque ninguém enxerga os índios. Grileiros matam índios na Amazônia. O governo mata índios com cloroquina.

Índios morrem infectados pelo coronavírus. Índias são violentadas e mortas por invasores. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, exacerbou essa tarefa de defender os brancos contra os índios e contra a floresta.

Salles já foi mandado embora. Mas que ninguém duvide que possa ficar impune como cúmplice de grileiros, garimpeiros, incendiários, contrabandistas de madeira e toda espécie de bandido da floresta.

O jornalista Marco Weissheimer divulgou no jornal Sul21 um depoimento em vídeo de Milena Jynhpó, também kaingang da Guarita e amiga da menina morta perto da reserva. Ela diz:

“Eu, Milena Jynhpó, kaingang da Terra Indígena Guarita, demonstro minha total indignação e revolta pela morte da parente Daiane Griá Sales, minha amiga. Assim como Daiane teve, tenho sonhos e temo pela minha vida. Até quando teremos medo e insegurança em nossos territórios. Eu peço justiça e segurança para nós, meninas e mulheres que diariamente vivemos um sistema machista, cruel, brutal e assassino. Precisamos de ajuda. Estamos cansadas de ser invisíveis. Políticas públicas para proteger a vida de mulheres indígenas já! Daiane Griá Sales, presente!”

Nós só enxergamos kaingangs, guaranis e indígenas de outros povos quando eles surgem à nossa frente vendendo artesanato em praças. Ou quando as crianças mostram suas danças em troca de moedas na Redenção, em Porto Alegre.

Invisíveis

Os índios acampados em Brasília lutam contra o Supremo e contra tudo; enquanto o julgamento é adiado, porque também eles são invisíveis tanto quanto as meninas da Guarita.

Os indígenas se tornariam protagonistas de uma luta que quase ninguém sabe que existe; se Sting, o cantor amigo de Raoni, aparecesse agora entre eles. Sting sabe mais dos kaiapós do Xingu do que nós sabemos dos kaingangs e dos guaranis da Guarita.

(Texto originalmente publicado no EXTRA CLASSE)