A colunista e os dois demônios que lhe tiram o sono

A colunista Catarina Rochamont e Sergio Moro
Catarina defende Moro em alemão, mas não entende idioma – Foto: Reprodução

Por Lenio Streck, Marco Aurélio de Carvalho e Fabiano Silva dos Santos

O grande Norberto Bobbio dizia que a lição número um de um cientista é não comparar ovos com caixa de ovos. Sempre dá errado.

Outra lição vem do grande Wittgenstein (muito lido em faculdades de filosofia), que dizia: sobre o que não se tem competência para falar, deve-se calar.

Essas duas lições parecem não terem sido captadas pela colunista e filósofa Catarina Rochamonte, autoproclamada liberal-conservadora (sic).

Em artigo na Folha, usa a prisão de Roberto Jefferson para atacar Lula. Sim. Diz que gritar pela liberdade de Bob Jeff é o mesmo que gritar Lula livre.

Eis aí: ovos e caixa de ovos. Como filósofa, deveria saber sobre a tese dos dois demônios, raso truque retórico pelo qual, se tenho que, inexoravelmente, criticar um amigo (ou ex-amigo, porque Rochamonte é bolsonarista arrependida), tenho de, ao mesmo tempo, esculhambar um inimigo, arrastando-o para o mesmo terreno da infâmia. Nota zero na aula sobre sofismas.

Como filósofa, por certo ela não diria que Platão é um autor da modernidade ou do medievo. Tiraria zero.

Pois então como pode, sem saber nada de direito, repetir pérolas como “que o STF comete abusos, isso é público e notório.  O maior deles, diga-se de passagem, foi ter declarado suspeito o ex-juiz Sergio Moro a fim de garantir a elegibilidade de Lula”.

Então, para ela, declarar um juiz que criminosamente faz arapongagem de advogados e outros ilícitos não é parcial? Declarar essa suspeição é abuso? Público e notório, colunista?

Chumbou na prova. Claro. São coisas do direito que quem não é da área não entende um ovo.

Nós também não palpitaríamos sobre operação cardíaca. Ou sobre física quântica.

Leia também:

1 – Catarina Rochamonte defende Moro com citações em alemão que não entende. Por Luis F. Miguel

2 – Juristas rebatem Catarina, que comparou Lula a Roberto Jefferson: “Patético”

A filósofa-colunista é negacionista do direito

Negar a suspeição de Moro é como dizer que Barnard não fez o primeiro transplante cardíaco. E que cloroquina cura Covid.

Essa comparação é pertinente, porque o cerne é o negacionismo. Ou a ignorância.

É feio uma colunista dizer que a profissão de advogado serve para defender “abusos com unhas dentes” (sic) e que advogados quiseram fazer prevalecer “narrativa torpe”.

Sabe a colunista que, em uma democracia, quem diz o direito por último é a Suprema Corte? Ah, não gostou? Que coisa, não? Bob Jeff também não gosta.

Todos os bolsonaristas e os lavajatistas não gostam do STF. Logo, por qual razão Rochamonte estaria de acordo com o uso de garantais processuais, coisa que qualquer aluno da faculdade UniZero sabe?

Rochamonte, ao pretender criticar o Grupo Prerrogativas e o ex-Presidente Lula e, ao mesmo tempo, elogiar a Lava Jato, esqueceu de olhar o dicionário.

Afinal, ela fala em sanha persecutória. Que quer dizer ódio, rancor, fúria, ira, desejo de vingança.

Na mosca. A lava jato foi isso mesmo. Um rancor, uma fúria, uma ira e o desejo de vingança.

Uma operação criminosa a serviço de um projeto eleitoral que tirou do último pleito aquele que era o franco favorito para vencê-lo.

Uma operação que mergulhou nosso sistema de justiça em uma crise sem precedentes, levando a um cárcere político um réu sabidamente inocente por mais de 580 longos dias.

Portanto, numa palavra final, patético não é gritar Lula livre – afinal, ficou provado que lula foi vítima de uma sanha persecutória. E não o contrário.

Patético é comparar a aplicação de garantias processuais, só ignoradas por quem não sabe nada de direito (jusnegacionistas), com a delinquência de um celerado como Roberto Jefferson.

O Supremo merece nosso reconhecimento e o nosso aplauso

Tem agido com absoluta correção na defesa da Democracia e das instituições.

Desconhecer este papel é fruto de má-fé ou de profunda falta de informação e conhecimento.

A tese dos dois demônios realmente é muito rasa. Esperamos mais criatividade. Há por aí bons cursos de retórica.

Fica a dica.

Lenio Streck, jurista e professor

Marco Aurélio de Carvalho, advogado

Fabiano Silva dos Santos, professor e advogado

Coordenadores do Grupo Prerrogativas