Conheça a história de Andrezza, que perdeu mãe e avós para covid e diz que jovens contribuem para a tragédia

Por Hellen Alves 

Bar lotado no Rio, na noite deste domingo (9) — Foto: Reprodução

Não é necessário ir muito longe para se deparar com pessoas descumprindo as medidas de combate ao novo coronavírus. Basta pegar o celular e dar uma conferida nas redes sociais para ver diversos exemplos: festas, bares lotados, comércios e praias abarrotados. 

A flexibilização da quarentena fez com que esses registros se tornem cada dia mais frequentes para desespero daqueles que têm dimensão da crise sanitária global que enfrentamos. 

‘Eu me sinto obrigada a repetir a minha história para todos na esperança de que entendam que existem famílias inteiras morrendo’, desabafa Andrezza Pais, 20 anos, estudante universitária, que perdeu a mãe e os avós maternos para a covid-19. 

A avó de Andrezza foi levada ao hospital após algumas complicações de saúde e precisou aguardar 48 horas por uma transferência dividindo o ambiente com pacientes infectados pela covid. Foi nesse contexto que ela, a mãe e os avós contraíram a doença.

A mãe de Andrezza, no centro, com os avós da jovem – Foto: Arquivo pessoal

A universitária era a única responsável pelos familiares e, como seu quadro clínico não era tão grave, ela prosseguiu com o tratamento em casa. ‘Como os hospitais estão cheios, até os privados, não foi difícil’, explica. 

Além da covid, foi identificado que a avó de Andressa tinha um câncer maligno nos pulmões que avançou drasticamente por conta da ação do vírus. O quadro dela foi considerado irreversível e idosa veio a óbito poucos dias depois do diagnóstico. 

‘Eu vejo parentes meus indo para bares e festas sem uma mínima proteção, se apoiando no discurso de que aconteceu com a minha família foi algo isolado, mas não foi’, diz Andrezza. 

Andrezza fez esse relato (imagem acima) nas redes sociais alertando uma prima sobre os riscos de contágio pela covid-19. A jovem também denuncia que os bares próximas de sua casa no Rio de Janeiro estão lotados de pessoas sem máscaras, compartilhando copos e desrespeitando o distanciamento mínimo.

‘Eu me pergunto quantas famílias vão ter que ser mortas para que todos comecem a entender o problema, quantas pessoas vão ter que morrer para cada um assumir sua responsabilidade?’, pergunta Andrezza. 

Ela ainda afirma que publicações como essa nas redes sociais passam a sensação de que a situação não é tão grave porque, se você não conhece ninguém que morreu da doença e está ‘todo mundo furando a quarentena’, você passa a duvidar da necessidade de cumprir as medidas de combate à covid.

Mike Ryan, chefe de emergências da Organização Mundial da Saúde, afirmou que as pessoas mais jovens também precisam aceitar que têm uma responsabilidade. ‘Faça a si mesmo a pergunta: eu realmente preciso ir a essa festa?’. 

Embora seja menos provável que os jovens sofram uma forma grave da doença respiratória, dados da OMS indicam que a proporção de infectados com idades entre 15 e 24 anos aumentou três vezes em cerca de cinco meses.

José Geraldo Poker, doutor e professor de Sociologia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, avalia que existe uma tendência entre os jovens e adultos jovens de estarem mais dispostos a correr riscos em busca da satisfação de determinados prazeres, como a busca por diversão.

Ele também alerta para a incompatibilidade entre prazer, hábitos e crenças e as demandas ou recomendações da ciência por outro. ‘A ciência se esforça e se preocupa em oferecer aquilo que é certo ou saudável a se fazer na vida, mas nem sempre a  racionalidade científica é suficiente para nos convencer a mudar hábitos e crenças, ou renunciar a determinados prazeres’, explica o sociólogo. 

Poker também avalia o papel do poder público no cumprimento das medidas de isolamento social. ‘Se há pessoas descumprindo as leis, e assim contribuindo para que a quarentena se estenda, isso indica que o poder público vem sendo omisso e incapaz de governar adequadamente para superar a pandemia no país’.

Andrezza é uma das milhares de pessoas no Brasil que perderam alguém para a covid-19, mas apesar desse gritante alerta ainda existem pessoas que duvidam da gravidade de doença. Entre elas, o próprio presidente Jair Bolsonaro que desde o início da pandemia tem participado e promovido aglomerações, além de recomendar medicamentos sem comprovação científica.

‘Então eu ligo a TV e vejo quem deveria ser o líder da nação dizer que ele não fazia milagres e que quem morreu tinha esse destino? O vírus da ignorância que sempre esteve no Bolsonaro vem se proliferando até mais rápido que a covid-19’, conclui Andrezza.

Com as ruas, redes sociais e governo lotados de pessoas que descumprem as medidas de combate à doença, o Brasil mantém uma média diária de 1000 mortos por dia e inicia uma flexibilização mesmo após dificuldades para atingir as metas de isolamento em diversas cidades do país.

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