“Didier Raoult é responsável por milhares de mortes”, diz referência belga de luta contra a covid-19

“Variante é relativamente inofensiva”, afirma Didier Raoult em vídeo sobre variante delta, considerada pela OMS como preocupante. Foto: Youtube/IHU Mediterranée-Infection

Depois dos protestos de Didier Raoult, o Institut Hospitalo-Universitaire de Marseille, onde o defensor da cloroquina para a Covid-19 é diretor, voltou atrás na decisão de não reconduzi-lo ao cargo. Enquanto isso, uma das maiores referências da medicina belga o acusa de ser “responsável por milhares de mortes evitáveis”.

Segundo artigo do jornal Le Monde publicado no último mês de agosto, a decisão do conselho administrativo dos hospitais de Marselha, no sul da França, era de não atender ao pedido do acusado de charlatanismo por conselhos de medicina da França.

“A comissão médica do AP-HM (assistência pública de hospitais de Marselha) não vê razão para prolongar Didier Raoult, nem mesmo por dois dias e meio por semana, como ele pede. Há equipe suficiente no IHU para que sua partida seja compensada”, dizia no Le Monde o professor Jean-Luc Jouve, presidente da comissão médica local.

Como noticiado pelo DCM, o novo diretor da rede pública regional de hospitais François Crémieux havia afirmado que era preciso lançar rapidamente um novo processo de seleção, pois não desejava prolongar o mandato do defensor da cloroquina.

Raoult, que se aposenta compulsoriamente aos 69 anos da atividade de professor na Universidade Aix-Marseille, havia pedido para permanecer no cargo de diretor.

Num primeiro momento, ele havia protestado contra a decisão, mobilizando seus “aliados” no laboratório, como o diretor adjunto Eric Chabrière, que havia tuitado que não havia limite de idade para ocupar a direção do instituto. Em entrevista à televisão francesa, Raoult havia afirmado ser vítima de um golpe.

Nos dias seguintes, manifestantes antivacina foram às ruas protestar contra a mudança. Mas nesta semana, o poder do charlatanismo venceu a razão e o compromisso encontrado foi de prolongar o mandato de Raoult até o ano que vem.

“É a presidente eleita do IHU Dra. Yolande Obadia que nomeia o diretor e não o conselho de administraçao”, disse Raoult.

De acordo com o canal de televisão France 3, é a gestão dela enquanto presidente do instituto que provocou as suspeitas da agência francesa anticorrupção, culminando em um mandado de busca e apreensão este ano no IHU. Um cheque de 300 mil euros assinado pelo laboratório foi destinado ao Institut pour la recherche et le développement (Instituto para a pesquisa e desenvolvimento da França), dirigido na época pelo marido dela, Jean-Paul Moatti para despesas “não justificadas”.

Yolande é uma grande aliada de Raoult. Há mais de dez anos ela alterna com o médico as posições de poder no laboratório. Em 2011, ela era a diretora e ele, o presidente. Naquele ano, eles inverteram os papéis.

Um processo de seleção será aberto para anunciar o novo diretor do IHU em 30 de junho do ano que vem.

Cientista genocida?

Se os esforços de Raoult para manter o cargo surtem efeito na França, graves acusações vêm do país vizinho.

Emmanuel André, responsável pelo laboratório belga de referência para a Covid e professor da Universidade de Leuven, acusou o cientista francês de matar milhares de pessoas.

“Didier Raoult mata pouco a pouco. Quando discuto com pessoas que se recusam a se proteger contra a Covid-19 pela vacina, fico perplexo ao ouvir que eles citam ainda e sempre Didier Raoult como única fonte de informação à qual dão crédito”, publicou em sua conta no Twitter.

“Eu estimo que Didier Raoult é responsável por milhares de mortes evitáveis nos países francófonos de nosso planeta, incluindo na Bélgica e na África”, disse, certamente esquecendo dos estragos também provocados nos Estados Unidos e no Brasil.

“Cada dia que passa só piora o inferno que ele representa na gestão dessa pandemia”, afirmou.

“Desde o mês de abril de 2021, algumas semanas depois do início da campanha de vacinação, Didier Raoult afirmava que as vacinas ‘não funcionavam muito bem’ e ‘não funcionavam’ contra as variantes”, lembra. “É mentira, mas ele não liga”, diz o porta-voz interfederal nomeado pelo governo belga na luta contra a Covid-19.

“No início de agosto de 2021, ele afirma que a variante indiana não é severa e se pergunta sobre a necessidade de recorrer à vacinação para um vírus comum. Ao minimizar o risco que essa variante representava, ele matou pessoas”, acusa.

“Ao mesmo tempo, ele continua recomendando a hidroxicloroquina como tratamento precoce contra a Covid longa. Ele recomenda também a ivermectina, a ciclosporina e a parafina. Difunde informações incorretas. Obstinadamente”.

“Porque ele sabe que suas teorias não se mantêm, ele sugere que as pessoas que criticam ou criticavam suas teorias têm conflitos de interesse. Fácil. Eficaz, mas tão desonesto”, afirma.

“Esse médico inundou desde o início da pandemia as redes sociais com informações não verificadas e demonstra um ceticismo oportunista bem mais do que científico em relação às vacinas”, ironiza.

Didier Raoult é uma mancha para a ciência francesa e para a credibilidade das instituições do país. Um desastre internacional.