Fundador do MBL, advogado trabalhou para MamãeFalei enquanto recebia como assessor na Câmara. Por Pedro Zambarda

Arthur MamãeFalei e Rubinho Nunes. Foto: Reprodução/YouTube

“Nós vamos ensinar você a ganhar uma eleição com pouca grana. Eu conheço gente que gastou mais de 10 milhões de reais agora em 2018. De caixa dois. De comprar lideranças. E, mesmo assim, essa pessoa não conseguiu entrar, vencer”, disse Arthur Moledo do Val, o youtuber MamãeFalei, em um vídeo de 10 de setembro em seu canal. A candidatura de Arthur tinha sido confirmada por seu partido, o Patriota, dois dias antes.

A campanha do youtuber do MBL segue o protocolo do movimento desde o golpe contra Dilma Rousseff e os ataques ao PT. Nas mensagens de posts em redes sociais e nos vídeos, ele defende o corte dos gastos públicos. E fala isso a partir do seu próprio mandato como deputado estadual e também como aspirante ao cargo de prefeito de São Paulo.

No começo de 2020, quando a pandemia do novo coronavírus começou, MamãeFalei chegou a propor 50% de corte do salário dos deputados. No ano anterior, o youtuber chegou a divulgar no Twitter que teve “gasto zero” de verba de gabinete.

Um exame mais detalhado dos assessores do Arthur MamãeFalei mostra ele não poupa tanto dinheiro quanto parece. Especialmente envolvendo um advogado chamado Rubens “Rubinho” Alberto Gatti Nunes.

O advogado de Vinhedo que era do MDB

Rubens Nunes, do MBL

Rubinho é um nome conhecido do MBL, e já foi tema de reportagem do DCM pelo menos desde 2016. O Diário publicou em maio daquele ano que ele tentou concorrer ao cargo de prefeito de Vinhedo. Rubinho Nunes acabou desistindo da candidatura e tentou ser vice-prefeito em uma chapa com Dario Pacheco, do PTB.

Na época, ao contrário do que o MBL falava sobre “apartidarismo”, Rubinho recebeu cartas de apoio do então ministro Moreira Franco e do então presidente Michel Temer.

Perdeu a eleição para o tucano Jaime Cruz. 

Os fundadores do MBL, segundo uma reportagem do Le Monde Diplomatique de 2017, têm ligação de amizade com políticos do PSDB e do PTB desde o começo do movimento – conhecido como Renova Vinhedo — em 2014.

No mesmo ano da candidatura de Rubinho, um ex-dirigente contou ao repórter Marcos Sacramento do DCM que o “PMDB deu dinheiro, casa e carro para o MBL”. O nome dele é Bráulio Fazolo e, do Espírito Santo, ele cuidava do site e da captação de novos integrantes do movimento.

Por isso, mesmo com a derrota em Vinhedo, Rubinho Nunes buscou alçar novos voos e já se descrevia como “advogado do MBL”. Em um áudio de 2019, revelado pelo site The Intercept, Renan Santos relata uma conversa sua com Rubinho. O movimento tentava escapar da regra eleitoral que obrigaria o MBL a coletar centenas de milhares de assinaturas em todo o Brasil parar criar um partido e deu uma ideia que é ilegal: “compra, faz um acordo”.

A ideia seria adquirir uma legenda pequena e enganar apoiadores para desenvolver o “partido do MBL”. A conversa, segundo o Intercept, foi mandada para um grupo de colegas do próprio movimento.

Sem solucionar a questão, MamãeFalei, Rubinho e o núcleo duro do grupo foram se filiar ao Patriota em 2020, mesmo com Kim Kataguiri e Fernando Holiday eleitos pelo DEM.

Na mesma época da filiação ao Patriota, em fevereiro deste ano, o repórter Caíque Lima, do DCM, informou que Rubinho Nunes foi condenado a pagar R$ 15 mil ao Bradesco por dar calote no banco. Desde setembro de 2019, o advogado tornou-se assessor e secretário parlamentar do deputado Kim Kataguiri com um salário de R$ 15 mil (R$ 12 mil com os descontos). O motivo para ele não pagar o que devia ao banco é um mistério, mas é comum dentro do MBL – Renan Santos, outro fundador do movimento, e sua família acumularam mais de uma centena de processos na Justiça com empresas que foram abertas e não pagaram impostos.

Mesmo com o cargo parlamentar com Kim, Rubinho Nunes continuou trabalhando como advogado de outros integrantes do movimento, incluindo Arthur MamãeFalei, hoje candidato ao cargo de prefeito de São Paulo. A informação foi antecipada pelo repórter Vinícius Segalla, do DCM, em 10 de setembro de 2020

Um dia antes, Rubinho deixou o cargo no gabinete de Kim. A informação consta no site da Câmara, na prestação de contas e informações de remuneração na área de transparência.

A remuneração de Rubinho Nunes como assessor de Kim Kataguiri. Foto: Reprodução

Rubinho Nunes se desligou porque, dentro do Patriota, é candidato a vereador por São Paulo.

Mesmo com o desligamento com o mandato de Kim Kataguiri, há diferentes datas que mostram que Rubinho trabalhou como advogado de outros integrantes do movimento e em outros processos enquanto era assessor parlamentar.

Rubinho Nunes, o candidato que diz que recuperou milhões e atuou sendo, ao mesmo tempo, advogado e assessor de deputado. Foto: Reprodução/Twitter

Conflito de interesses e falta de ética

A reportagem de Segalla aponta que, no dia 14 de março de 2019, Rubinho Nunes foi o único representante legal de Arthur MamãeFalei em uma ação por danos morais contra o site Catraca Livre. No mesmo de setembro, mesmo trabalhando com Kim Kataguiri, ele já havia apresentado uma procuração à Justiça estendendo seu trabalho como representante legal do youtuber do MBL.

Diferentes fontes entraram em contato com o DCM, próximas ao Movimento Brasil Livre, e contaram mais detalhes sobre esse conflito de interesses de um então assessor pago com dinheiro público que atuou como advogado. E deram a dica para olhar, com calma, o canal do próprio Arthur Moledo do Val para mostrar as atividades de Rubinho.

No dia 17 de julho de 2020, uma sexta-feira, Rubinho Nunes participou de uma live como advogado de Arthur MamãeFalei em uma entrevista no canal do jornalista Guga Noblat. O assunto da transmissão ao vivo era a acusação de que o Movimento Brasil Livre cometia o crime de lavagem de dinheiro após a prisão de dois aliados do grupo pedida pelo Ministério Público de São Paulo. Na época, Rubinho ainda era assessor de Kim Kataguiri, mas se apresenta como defensor do youtuber.

Saindo um pouco do canal de Arthur, no dia 6 de agosto, uma quinta-feira, Rubinho Nunes subiu em seu canal um vídeo sobre um processo que moveu contra o prefeito Bruno Covas. O advogado acionou Covas, o que certamente é interessante para o candidato MamãeFalei, pelo gasto de mais de R$ 10 milhões com publicidade de sua gestão. No dia 17 do mesmo mês, ele processou Sara Winter por expor dados pessoais de uma criança que estava grávida e precisava fazer um aborto legal. 

As duas atividades de Rubinho foram realizadas enquanto ele era assessor de Kim. 

Uma reportagem do DCM no final de setembro apontou que Arthur MamãeFalei fez uma série de ataques ao Padre Júlio Lancellotti pelo trabalho dele com moradores de rua. O youtuber fez esses ataques, usando inclusive de informações mentirosas, depois de uma visita que fez na região de São Paulo conhecida como Cracolândia e registrada em um vídeo no dia 4 daquele mês.

No dia 28 do mesmo mês Rubinho gravou uma live ao lado de MamãeFalei se apresentando como seu defensor em um processo por injúria contra o Padre Júlio.

Ou seja, ele era advogado do MamãeFalei enquanto recebia como assessor na Câmara dos Deputados. É de se perguntar se o Legislativo federal estaria pagando para Rubinho defender amigos do MBL em ações que nada têm a a ver com o mandato de Kim Kataguiri.

Se Arthur defende “ganhar uma eleição com pouca grana” para prefeito de São Paulo, não foi uma atitude exemplar ter um advogado que trabalhou com ele nos dias em que deveria trabalhar como assessor de outro deputado federal do MBL. Na prática, Rubinho Nunes recebeu verba pública como secretário do deputado Kim Kataguiri enquanto exercia outras atividades.

A Folha de S.Paulo publicou uma reportagem no dia 15 de outubro apontando que MamãeFalei usou três assessores com cargos comissionados na Alesp em sua campanha. Um deles é o presidente municipal do Patriota em São Paulo, Renato Battista, que é membro do MBL e está lotado na liderança do partido na Assembleia. Ele representou a campanha de Arthur, por exemplo, em reuniões feitas em horário comercial com emissoras a respeito de debates.

Outro servidor, lotado no gabinete de Arthur, Rafael Rizzo também é membro do MBL e secretário de comunicação do Patriota. Ele administra no Facebook um grupo de apoio ao candidato. Seu último salário líquido foi de R$ 7.796. A página era, até esta quarta-feira (14), administrada também por Andreas Barbeiro, servidor do gabinete de Arthur e secretário de organização do Patriota. Ele não consta mais entre os gerentes do grupo. Barbeiro, que recebeu R$ 16.232 líquidos em seu último pagamento, atuou na comunicação da campanha até a contratação de assessores de imprensa próprios.

A nova sede do MBL

As fontes que entraram em contato com o DCM informaram também que, em tempos de campanha eleitoral, o próprio Movimento Brasil Livre passou por uma reforma. Na prisão de empresários ligados ao MBL em julho, o grupo estava em um imóvel mais modesto na Vila Mariana, bairro na zona sul de São Paulo.

Imóvel do MBL na Vila Mariana, mais modesto. Foto: Reprodução/Globo
Novo imóvel do MBL no Morumbi. Foto: Reprodução/America Business Park
Novo imóvel do MBL no Morumbi. Foto: Reprodução/Google Street View

O grupo mudou de sede para um prédio luxuoso no Morumbi, chamado América Business Park. O aluguel da sala comercial e do conjunto no imóvel varia de R$ 4 mil até mais de R$ 10 mil. 

Outro lado

O DCM entrou em contato com os candidatos  Arthur Moledo do Val, o MamãeFalei, e com o próprio Rubens Nunes. A reportagem também entrou em contato com a assessoria de imprensa do deputado Kim Kataguiri, que empregou Rubinho de setembro de 2019 até setembro de 2020.

Até o momento da publicação desta reportagem, não obtivemos resposta.

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