EXCLUSIVO – Lava Jato usou delação forjada de Barusco para fraudar outras duas: “Isso colocará Lula em cena”

Conheça os procuradores Thaméa Danelon e Deltan Dallagnol
Os procuradores Thaméa Danelon e Deltan Dallagnol (Facebook/Reprodução)

Chats da extinta força tarefa da Lava Jato mostram que procuradores incluíram trechos sobre pagamento de propina em pelo menos duas delações, mesmo não tendo material probatório que sustentasse tal afirmação. 

É o que revelam diálogos obtidos com exclusividade pelo DCM em mensagens analisados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Spoofing.

As demais reportagens desta série estão aqui: 1, 2, 3 e 4.

Na conversa, os procuradores Deltan Dallagnol, o “Delta”, e Roberson Pozzobon, o “Robito”, combinam como incluir o estaleiro Keppel Fels nas delações, uma vez que tinham apenas convicção de que “alguém da Keppel estava envolvido diretamente”, como admitiu Pozzobon.

“A solução seria colocar um entre aspas do Barusco [Pedro Barusco, ex-executivo da Petrobras], que disse na colaboração que ‘Zwi [Skornicki, lobista do estaleiro Keppel Fells] pagava propina da Keppel’ na delação de Musa [ex-gerente da Petrobras, Eduardo Costa Vaz Musa]”, afirma Pozzobon. 

O que os procuradores tentam acertar é a versão de que Pedro Barusco, em sua delação, havia ligado Zwi e a Keppel ao pagamento de propina a agentes políticos. 

Para dar mais veracidade à armação, Roberson sugere que o mesmo artifício, ou seja, citar Pedro Barusco, seja repetido na delação de João Carlos de Medeiros Ferraz, ex-presidente da Sete Brasil. 

‘Robito’ não tinha certeza “de fato” de que “alguém” da Keppel estava envolvido em propinas

Em uma mensagem anterior, os procuradores enumeram as vantagens da manobra. “1) Acho que isso colocará a Keppel em uma posição de nos procurar rapidinho para fazer um acordo de leniência”. Argumentam que os “orientais vão ressarcir todo o dano sem titubear, para evitar a exposição”.

“Orientais” é uma referência à sede da Keppel, que fica em Singapura.

Em outro trecho, os procuradores buscam uma vantagem política ao tentar envolver o ex-presidente Lula nas delações de Ferraz e Musa. “Mencionar que JS [João Santana, publicitário das campanhas petistas em 2010 e 2014] começou seu trabalho publicitário com o PT nas eleições de Lula”.

“Isso colocará LULA em cena”.

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Em resposta, Dallagnol diz que os pagamentos a JS [a João Santana] foram a partir de 2012” e que “coloca mais a Dilma do que o Lula, não?”.

Na sequência da conversa, Pozzobon volta à carga contra a Keppel e Zwi, argumentando que o lobista “destinava parte de sua comissão como propina”. “Mas que eles [a Keppel] se beneficiaram em contratos e aditivos, eles se beneficiaram”.

Além dos alvos já citados, Pozzobon diz que a intenção é que as delações afundem “a Odebrecht de vez”. 

Em 2019 a Odebrecht entrou com um pedido de recuperação judicial. Em quatro anos de Lava Jato, a empresa perdeu cerca de 82% do quadro de funcionários, passando de 276 mil a 48 mil. 

“A indústria de delações forjadas, a serviço de um projeto político e eleitoral, destruiu muito mais do que reputações. Deixou no país um rastro de pobreza e de miséria. Perdemos quase 5 milhões de postos de trabalho e mais de 170 bilhões em investimentos”, afirma o advogado Marco Aurélio de Carvalho, especialista em Direito Público e coordenador do Grupo Prerrogativas.

Os procuradores deixam claro que a aspa sobre o lobista Zwi Skornicki viria da colaboração premiada de Pedro Barusco. Isso pode ser meia verdade ou uma mentira completa.

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A prática é criminosa. Segundo a Lei 12.850 de 2013, que regulamenta a delação premiada, é vedado que autoridades sugiram versões, solicitem inclusão ou exclusão de trechos ou qualquer outro artifício que impeça a livre iniciativa do delator em levar ao conhecimento dos órgãos competentes a existência de um delito. 

É igualmente crime a edição posterior do material oriundo da delação premiada. “Parece que a ilegalidade compensa. Dallagnol e Moro seguem por aí, lépidos e fagueiros. Pior: um deles, Sergio Moro, quer ser presidente da república”, diz o jurista Lenio Streck.

“A sociedade brasileira precisa enfrentar a vulgarização do instituto da delação premiada que mergulhou nosso sistema de justiça em uma crise sem precedentes. Estes procuradores desonraram a nobre função que abraçaram. Merecem uma punição exemplar e pedagógica”, defende Carvalho.

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Os nomes de Zwi Skornicki, Pedro Barusco, Eduardo Costa Vaz Musa e João Santana apareceram juntos na 23º fase da Operação Lava Jato.

Os procuradores do MPF de Curitiba argumentaram à época que a fase visava os pagamentos feitos no exterior pelo lobista Zwi Skornicki e por offshores controladas pelo Grupo Odebrecht em favor dos publicitários João Santana e Mônica Moura.

Pela primeira vez a Força Tarefa também apontava um esquema de corrupção na Sete Brasil, companhia de capital misto criada para produção de sondas para exploração do pré-Sal.

Segundo o MPF, à época, “pagamentos foram feitos em benefício de contratos bilionários realizados pela empresa Keppel Fels com a Petrobras e a Sete Brasil”.

Os procuradores acreditavam que as propinas dos contratos entre Sete Brasil e Keppel passavam pelo sistema de corrupção da Petrobras e alimentavam os “publicitários em benefício do PT”.

“Resultado dessa promiscuidade? É só olhar em volta. Práticas criminosas da força tarefa e do juiz Sergio Moro que ficarão impunes. Graças à Lava Jato, a não-política assumiu o poder”, afirma Streck.

O lobista Zwi Skornicki