Peitou os militares argentinos: por que Reinaldo foi rifado por Cláudio Coutinho na Copa de 78

Veja o Reinaldo
Peitou os militares argentinos: por que Reinaldo foi rifado por Cláudio Coutinho na Copa de 78. Foto: Reprodução/Twitter

A história do jogador de futebol Reinaldo e como ele peitou a ditadura da Argentina está viralizando no Twitter. Confira a história toda aqui no DCM.

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Como Reinaldo foi rifado

“O dia que um jogador da seleção peitou os militares argentinos. Segue o fio…

O ano era 1977, o Atlético Mineiro tinha um dos seus melhores times da história. O Galo terminou o Campeonato Brasileiro com a liderança absoluta, invicto e com 10 pontos de diferença para o vice-líder São Paulo.

A grande estrela desse time era, sem dúvidas, Reinaldo, um dos maiores jogadores da história do futebol. O camisa 9 terminou aquele Brasileiro com 28 gols em 18 jogos. A média de 1,55 gols/jogo é até hoje a melhor da história do futebol brasileiro.

No meio futebolístico, Reinaldo era um dos maiores críticos às ditadura militares que atravessavam o Brasil e toda a América Latina. Comemorava sempre com o punho cerrado, gesto dos Panteras Negras, símbolo antirracistas e socialista.

Reinaldo era destaque também fora de campo nos meios que escapavam da censura.

Adiantemos o tempo! O ano seguinte, 1978, era ano de Copa do Mundo. Ocorreria na Argentina, país que estava imersa em uma sangrenta ditadura – a que mais matou na América.

Apesar de ser, em consenso, o melhor jogador do Brasil na época, Reinaldo não tinha chances na seleção. Já era, também em consenso, que os motivos iam além do campo. ‘

‘Por que querem afastar Reinaldo?’

‘Por que Reinaldo não pode ter opinião política?’

Após muita pressão, especialmente da torcida do Atlético, não teve jeito, Reinaldo foi convocado para a seleção brasileira. O camisa 9 foi muito bem nos amistosos preparatórios, fez gols e garantiu a vaga entre os selecionáveis para a Copa.

Na despedida do Brasil, antes de embarcar para a Argentina, Ernesto Geisel, Presidente da República, se reuniu com jogadores e comissão técnica. Ao ver Reinaldo, exclamou: ‘Então é esse o menino?!’ e chamou Reinaldo para sua sala.

‘O general disse que eu jogava muito bem, mas que eu não deveria falar de política porque disso eles cuidavam. Tudo isso em um tom imperativo e firme: estava me dando um recado. Fiquei assustado e não respondi nada’. – Reinaldo, sobre o acontecimento.

Toda a seleção era comandada por militares. Desde o técnico Cláudio Coutinho, até o presidente da CBD Heleno Nunes. O técnico reforçou o pedido de Geisel. ‘Enfatizou para que eu não comemorasse com o punho cerrado na Copa. ‘Comemore de braços abertos que é mais bonito”.

O Brasil seguiu para a Argentina em busca do tetra. O clima era pesado. A chegada da comissão foi com ruas repletas de militares armados até os dentes.

Logo na estreia da Copa, o Brasil enfrentava o bom time da Suécia. A seleção saiu perdendo, mas, com gol de Reinaldo, empatou na sequência. Reinaldo parecia perdido na comemoração. Não sabia se deveria acatar as ordens impostas pelos militares ou passar sua mensagem outra vez.

Após os segundos de hesitação, o Rei levantou o punho cerrado. O camisa 9 protagonizava um gesto socialista em solo argentino, em uma ditadura que matou mais de 30.000 pessoas.

‘Não sei mensurar o impacto desse gesto durante a Copa. Estava isolado na concentração da seleção e não chegavam muitas notícias lá. Mesmo assim, foi um ato muito ousado, pois eu havia recebido a recomendação de não comemorar daquela forma, inclusive das autoridades argentinas’.

O Brasil chegou a virar o placar com Zico, após escanteio, mas o gol foi invalidado. O juiz havia apitado o fim da partida com a bola no ar.

Após o gesto, Reinaldo não jogaria mais pela seleção. Sem explicações, foi sacado do time titular e não voltou. O Brasil empatou com a Áustria no segundo jogo e gerou reclamações de Zico sobre as alterações: ‘Se eu e Reinaldo não fizemos mais gols a culpa não é nossa’.

Chegando no hotel, após o jogo, Reinaldo recebeu um envelope com remetente da Venezuela. Sem desconfiar do que se tratava, se assustou com o conteúdo ao abrir. Era um relatório da Operação Condor – operação coordenada pela CIA nos países latino-americanos.

O documento revelava como foram planejados os assassinatos de líderes políticos latinos opositores às ditaduras. Era explicado como Orlando Letelier, político chileno, foi assassinado pelo DINA, a polícia do regime militar de Pinochet. Uma bomba foi escondida em seu carro.

O documento também assumia que a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, após acidente de carro, na verdade havia sido planejada. Seu carro havia sido sabotado. Era mostrado todos os detalhes da cooperação entre o brasileiro SNI (Serviço Nacional de informação) e DINA.

‘O documento estava em espanhol, não consegui entender tudo que estava escrito. Fiquei apavorado, estava com uma bomba em minhas mãos, não sabia como lidar com aquilo, por isso guardei o envelope no fundo da minha mala e não mostrei pra ninguém’. – Reinaldo.

‘Quando retornei ao Brasil, deixei o envelope com meu amigo Gonzaguinha, que era ligado a movimentos de esquerda. Nunca mais falei disso’.

Reinaldo, com seu gesto em uma partida de Copa do Mundo, chamou a atenção de líderes do mundo todo para os horrores que a América Latina estava submetida. Nas mãos dos militares e dos americanos, foram milhares de mortos e desaparecidos no continente. Muito mais que um ídolo”.

Veja o fio no Twitter.

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