O Grêmio mereceu

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Muito pouco, tarde demais

 

As agressões racistas da torcida do Grêmio contra o goleiro Aranha, do Santos, provocaram a exclusão do clube gaúcho na Copa do Brasil. A eliminação de uma grande equipe na segunda competição mais importante do calendário nacional por causa do racismo da sua torcida pode alertar os dirigentes para problemas relativos ao preconceito no futebol.

Com a decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), o Grêmio levou multa de R$ 54 mil, prejuízo ínfimo comparado ao que perdeu com a eliminação. O clube embolsaria R$ 740 mil se passasse para as quartas de final da copa. A classificação para as semifinais valeriam mais R$ 850 mil, o vice-campeonato R$ 1,8 milhão ou o título R$ 3 milhões. Somam-se os valores que seriam arrecadados com a bilheteria dos estádios e o prejuízo incalculável com a imagem.

O tombo foi grande demais, ultrapassa as paixões futebolísticas e afeta planilhas financeiras. Pode ser que agora, depois da sentença, o ex-presidente gremista Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, e seus amigos cartolas compreendam que ofensa racial é coisa séria e deve ser punida exemplarmente para que não se repita.

Cacalo é um símbolo da falta de noção de parte dos gremistas e, como ex-dirigente, ajuda a entender o que aconteceu com o clube.

Em debate na Rádio Gaúcha na última terça-feira, usou uma série de clichês para desqualificar as agressões sofridas por Aranha.

Primeiro, fez questão de dizer que não é racista por defender o Grêmio, argumentando que tem “grandes amigos negros”. Na cabeça dele, basta ter amigos negros para ser imune ao preconceito.

Em seguida, recorreu ao folclore para minimizar os gritos de “macaco” proferidos pela torcedora Patrícia Moreira e captados pelas câmeras da ESPN. “A menina está virando uma assassina por ter feito um grito de folclore no futebol”, disse Cacalo, condizente com a noção equivocada de que as tensões raciais no país acabaram junto com a abolição da escravatura.

Aumentando o tom, ele usou o artifício covarde de tentar transformar a vítima em culpada.  “O Aranha não deixou o jogo andar, interrompeu o jogo tempo inteiro, infringiu a lei o tempo inteiro. Aí ouviu um gritinho, o coitadinho, que tem um passado de broncas desse tipo parecidas, foi lá e fez essa cena teatral aquilo”.

Para o atual presidente, Fábio Koff, “este julgamento atinge um clube com 111 anos de história, que tem atletas de cor nas escolinhas, nos alojamentos da base”. Sim, “de cor”. Que cor, doutor Koff?

Se depois do petardo do STJD certos dirigentes continuarem com posicionamentos obtusos sobre questões raciais, atestarão com todas as letras que além de preconceituosos são burros. E quem paga é o time.

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