É difícil a situação do PSOL. Por Luis Felipe Miguel

PSOL vai abrir mão de candidatura própria em 2022
PSOL abre mão de candidatura pela ‘união das esquerdas’. Foto: Reprodução

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Por Luis Felipe Miguel

O PSOL está dividido entre o lançamento de uma candidatura presidencial própria (e provavelmente fadada à irrelevância eleitoral), posição minoritária no Congresso encerrado ontem, e um apoio quase incondicional a Lula, não importa o quanto a resolução partidária fale que “não pode ser uma via de mão única”.

Meu olhar é externo ao partido, mas me parece que nenhuma das duas opções é atraente.

É razoável lançar uma candidatura sem chance de ganhar. Mas ela tem que ser capaz de incidir sobre o debate público e, em alguma medida, tensionar as outras candidaturas.

Boulos não teve força para fazer isto em 2018. É ainda mais improvável que Glauber o consiga em 2022.

Mas se é para ser simplesmente um caudatário do lulismo, qual o sentido da existência do PSOL?

Se é para simplesmente apoiar a candidatura de Lula, por que alguém se filiaria ao PSOL, em vez de entrar logo no PT – e, se for o caso, achegar-se a uma de suas correntes mais à esquerda?

O problema não nasce da conjuntura. Ele revela a debilidade histórica do PSOL.

Parece-me que o PSOL falhou em definir uma identidade como partido. Desde que nasceu, seu papel principal foi ser uma espécie de grilo falante da consciência petista, denunciando as acomodações do PT com o sistema vigente e a ruptura de tantos de seus compromissos históricos.

Este papel perde sentido na hora em que o PT passa à oposição – ainda mais no bojo de um golpe contra a democracia e os direitos, tal como ocorreu.

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Nos últimos anos, o PSOL fez dois movimentos para ganhar identidade própria

Um foi assumir-se como porta-voz das múltiplas pautas chamadas “identitárias”, aceitando seus diversos registros, dos liberais aos emancipatórios.

Mas, na falta de um programa político claro, que integre tais reclamos num projeto de sociedade, é algo necessariamente frágil. E outros partidos já descobriram este nicho do mercado eleitoral e se esforçam por ocupá-lo.

O outro movimento foi transformar-se no “partido de Boulos”, tal como o PT é o partido de Lula. O líder do MTST ganhou um capital de simpatia à esquerda nas eleições de 2018, apesar da fraca votação, e mostrou potencial eleitoral em 2020.

Mas o próprio Boulos rechaçou a posição – contradizendo minha impressão inicial, de que ele buscava deliberadamente mimetizar a trajetória política de Lula (do movimento social para a construção do partido, com a manutenção de um capital de radicalidade que o credenciaria em sucessivas disputas).

Não vejo saída para o impasse de hoje que não aprofunde a crise de identidade do PSOL (e que o impasse se coloque nestes termos já denuncia o caráter eminentemente eleitoral do partido). É uma agremiação que tem grandes quadros, inclusive entre aqueles que compõem sua bancada na Câmara dos Deputados, mas que, em quase 20 anos de existência, não conseguiu se firmar como um polo efetivo da política brasileira.

Em 2018, apoiei a candidatura presidencial de Boulos por julgar que o Brasil precisa de um partido à esquerda do PT.

Continuo achando isto. Só é cada vez mais difícil acreditar que o PSOL seja capaz de desempenhar este papel.