Record mentiu: Cristina Seguí não é nenhuma jornalista de referência na Espanha

Record tentou criar credibilidade inexistente na Espanha a Cristina Seguí

A Record tentou fabricar uma grande revelação no fim de semana com a “denúncia” da espanhola Cristina Seguí sobre uma suposta rede de narcotráfico financiada por partidos de esquerda da América Latina, Espanha e Portugal que financiariam o Foro de São Paulo.

Mas além de não apresentar nenhuma prova, o único ponto de sustentação da reportagem é a suposta credibilidade da fonte. “A denúncia foi feita pela jornalista espanhola Cristina Seguí, uma das mais conhecidas do país”, disse o Jornal da Record.

Mas pelo que Cristina Seguí é conhecida na Espanha? Não por credibilidade. A Record mentiu.

“Cristina Seguí foi vetada em todas as televisões”, diz seu próprio programa, “Estado de Alarma”, no Facebook.

Em 2019, ela foi despedida ao vivo de um programa de televisão espanhola do canal 4 ao chamar uma colega jornalista de “gentalha” e “Monica Lewinsky de Puidgemont”, insinuando que era amante do independentista catalão exilado na Bélgica.
O apresentador do programa de debates “Todo es mentira” (Tudo é mentira) pediu na sequência ao comentário que ela se retratasse: “Cristina, desculpe, eu devo respeito a todos os colaboradores. O que eu não vou permitir é que se desqualifique dessa maneira a ninguém, tenha as ideias que tiver, eu lhe peço para que se retrate em relação ao que você acabou de dizer”.

“Não vou me retratar”, respondeu ela. “Adeus”, disse ele, recebendo os aplausos da plateia. Pediu novamente uma retratação, que ela recusou.

Não foi a primeira, nem sua última “polêmica”. Em 2018, quando participava da bancada de comentaristas do programa “El Laberinto”, no canal espanhol Antena 3, ela afirmou sobre cantadas a mulheres na rua: “Se te disserem ‘bela’ não tem problema, mas tampouco tem problema se te disserem que querem te meter sete vezes”.

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Uma de suas colegas reagiu. “Se um homem me diz isso na rua, ele está me botando um medo brutal no corpo”.

“Um homem de verdade não pode sair dessa condição”, retorquiu Seguí. “O que acontece quando é uma mulher que agride o homem? Eu não acho que se possa comparar uma cantada grosseira com uma agressão sexual”, tentou justificar.

Diferente do que diz a Record, Seguí não é conhecida na Espanha como “jornalista”, muito menos “especialista” em qualquer coisa. Num artigo do jornal conservador ABC, ela é descrita como “tradutora e desenhista gráfica mais conhecida por sua faceta de comentarista da atualidade política em programas de televisão”.

“Cristina Seguí não dirige nenhum espaço referência na Espanha. Teve popularidade por seu livro ‘La mafia feminista’, mas seus trabalhos não são muito conhecidos”, explica a cientista política Cristina Monge, professora da Universidade de Zaragoza.

“Quanto ao centro de Valência, não sei exatamente do que se trata porque há vários, mas me surpreenderia que fosse verdade na Espanha e aqui não tenham dito nada”, precisa.

Cristina Seguí é antes de tudo a co-fundadora do Vox, o partido de extrema direita do país do qual ela acabou se desligando de uma direção regional. Seus livros antifeminismo lhe renderam inclusive cancelamentos de lançamento em um teatro e no principal hotel da cidade de Zaragoza.

Antes das eleições legislativas vencidas em 2019 pelo Partido Socialista e Operário Espanhol, ela apontava o líder do conservador Partido Popular como seu favorito, em entrevista ao mesmo ABC.

Mas à frente do seu “Estado de Alarma” afirmaria um ano depois que toda a mídia espanhola se “prostitui” para o governo socialista do primeiro-ministro Pedro Sanchez.

Cristina Seguí se apresenta como defensora da “liberdade individual, inviolabilidade da propriedade privada, unidade nacional e redução do Estado”.

Cheia de sorrisos, ela entrevistou no “Estado de Alarma” em 2020 o presidente da Fundación Francisco Franco, defensora da obra do ditador espanhol de extrema direita, que matou mais de 140 mil opositores, raptou crianças de prisioneiras e internou meio milhão de pessoas em campos de concentração para trabalho forçado.

“Olá, amigos”

“Olá, amigos do Estado de Alarma, temos hoje com vocês o presidente da Fundación Franco, o general Juan Chicharro, que está fazendo uma grande batalha contra os meios de comunicação sobre a memória histórica deste país”, apresentou Cristina Seguí.

Cristina entrevista presidente da Fundacion Franco


“50 mil mortos (na pandemia de Covid-19) e estamos no topo da ruína econômica mundial, mas o governo está mais preocupado em ilegalizar a Fundación Franco”, disse ao militar.

“A sociedade espanhola está totalmente dopada pelos meios de comunicação. São muito poucos os que, como eu e você, lutam contra o domínio que têm o Partido Socialista sobre esses meios”, respondeu ele.

“Essa parte da sociedade que os meios de comunicação têm insultado perdeu o medo de pronunciar o nome de Franco”, defendeu Cristina Seguí. “Esclarecer a verdade histórica. Para isso, é louvável o objetivo da Fundaçao”.

Hoje, Cristina Seguí completa sua marca de negacionista no Twitter com publicações antivacina.

Antivacina
Retórica antivacina



A Record apresentou um dos casos mais grotescos de manipulação da história recente do telejornalismo.