“Mentir no currículo tem consequências devastadoras quando se é negro”, diz Silvio Almeida sobre Decotelli

Carlos Alberto Decotelli. Foto: Reprodução/Twitter

O filósofo Silvio Almeida comentou a notícia da fraude no currículo do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli.

Ele foi reprovado no exame de qualificação da banca de doutorado na Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, e por isso não tem o diploma do curso.

O Lattes de Decotelli foi alterado após a revelação.

Silvio escreveu o seguinte no Twitter:

Um fio sobre consciência racial, responsabilidade e o “direito de mentir”.

A consciência racial é também uma forma de autodefesa. Aprendi logo cedo que seria cobrado pelas minhas ações e palavras de uma forma que as pessoas brancas jamais seriam.

Aprendi que meus erros não seriam vistos como erros de um indivíduo, mas de “todos os negros”. São várias as circunstâncias que podem nos levar a cometer erros. Pressão por resultados, escassez de oportunidades, necessidade permanente de competição, vaidade, lucro etc.

Em um mundo atravessado pelo racismo, é preciso ter consciência do modo com que as pressões por resultado e por prestígio se colocam sobre pessoas racializadas e como as consequências por erros cometidos são sentidas de forma diferente por brancos e negros.

Mentir no currículo têm consequências devastadoras quando se é negro, pois todos vão olhar para a sua raça e vinculá-la ao erro cometido. A avaliação moral não será feita sobre o indivíduo, mas sobre os negros em geral. É assim que funciona o racismo.

Quando se é branco –  principalmente, se for homem e apoiado por certas instituições – você pode ser um jurista medíocre, um economista alienado, um “filósofo” delirante; pode mentir que estudou em Yale ou Harvard ou que tem doutorado, ser plagiador que isso será absorvido.

Mas se você for negro será cobrado por cada gesto que fizer no dia seguinte à exposição do seu ato. Sempre vão lembrar do que você fez e de que você também É um negro. E você será abandonado na estrada. E “nós que lutemos” para lidar com a hipocrisia e a seletividade racista.

 

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