“Provas de fraude eleitoral” que Bolsonaro diz que apresentará são de vídeo da irmã de Nise Yamaguchi

Candidata derrotada a deputada federal pelo PSL de São Paulo, Greice Naomi Yamaguchi, irmã de Nise Yamaguchi, abriu espaço para homem que diz ter provas de fraude eleitoral na disputa presidencial de 2014 | Reprodução

Supostas ‘provas de fraude em urna eletrônica’ que Jair Bolsonaro prometeu que vai apresentar em sua live semanal, logo mais, tem origem na mesma teoria apresentada em um vídeo postado em 2018.

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Apareceu nas redes sociais de Greice Naomi Yamaguchi, candidata a deputada federal pelo PSL-SP naquelas eleições. Na ocasião, ela teve apenas 5.905 votos e não foi eleita. Greice, que usou apenas o nome de Naomi, é irmã da médica Nise Yamaguchi, convocada para depor na CPI da Covid por sua atuação no chamado gabinete paralelo da Presidência da República durante a pandemia. Bolsonaro tem sido subsidiado pelo mesmo homem que aparece no vídeo afirmando que a vitória de Dilma Rousseff em 2014 foi fraudulenta.

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Esse técnico, porém, não deve mostrar o rosto na live. O homem também não aparece no vídeo da candidata bolsonarista. O  engenheiro de dados Amilcar Brunazo, um dos mais antigos defensores dessa tese e coordenador do movimento Comitê Interdisciplinar Independente, afirmou à equipe da coluna que o tal técnico se recusa a aparecer por temer ser preso pelo Supremo Tribunal Federal durante a transmissão.

“Eu o conheci em 2018, quando ele me apresentou os dados. Agora, quando o presidente o chamou, ele me perguntou o que eu achava de ele participar da live. Estava impressionado com o caso do (deputado federal) Daniel Silveira (PSL-RJ) (preso após uma transmissão em que ataca ministros do STF), com medo de ser perseguido e preso pelas autoridades eleitorais”, diz o engenheiro de dados. Brunazo disse que o técnico o procurou justamente porque ele está acostumado a participar de audiências no Congresso e de lives sobre o voto impresso. E afirmou ter opinado que a exposição pública do tal técnico seria muito grande, e os indícios de fraude não seriam suficientemente convincentes. Por isso, ele afirma, o homem decidiu escalar uma outra pessoa para fazer uma apresentação com seus dados junto com o presidente.

Essa teoria mentirosa disseminada por Naomi Yamaguchi, e que Bolsonaro tem alardeado publicamente, é a de que Aécio Aécio Neves (PSDB) venceu a disputa contra Dilma em 2014, mas que a vitória foi revertida por alterações no sistema do Tribunal Superior Eleitoral. A teoria é rechaçada pelo próprio Aécio e pelo TSE, que chegou a produzir materiais promocionais para explicar por que ela não procede. Nesta quinta-feira, em um discurso durante a inauguração da nova sede do Tribunal Regional Eleitoral do Acre, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, afirmou que nunca se documentou nenhuma fraude nas eleições, “por que o dia que se documentar, o papel da Justiça Eleitoral é imediatamente apurar. Para o ministro “mentira deliberada tem dono e precisa ser denunciada”.

Ainda no início de seu mandato, o presidente afirmou ter evidências de que venceu no primeiro turno em 2018, mas que a mesma conspiração teria modificado os números para levar à realização ao segundo turno contra Fernando Haddad (PT). No dia 21 de junho, o corregedor-geral eleitoral do TSE, Luís Felipe Salomão, convocou o presidente da república a apresentar as supostas provas. O prazo, que não incluiu o recesso judiciário, vence no próximo dia 2.

Nas últimas semanas, Bolsonaro vem prometendo apresentar suas provas – e chegou a anunciar que levaria o tal técnico à sua live no último dia 15, mas depois disse que o homem estava com Covid. Nas últimas entrevistas em que falou do assunto, Bolsonaro repetiu teorias idênticas às do homem que fala sem mostrar o rosto no vídeo de Greice Naomi Yamaguchi. Até mesmo metáforas usadas para explorar a suposta fraude foram repetidas por Bolsonaro.

A teoria que fez a cabeça do presidente se baseia, ironicamente, em dados divulgados pelo próprio TSE. A partir de mais de 300 parciais da apuração emitidas pela Corte ao longo da noite de apuração, em 27 de outubro de 2014, o informante de Bolsonaro buscou identificar padrões matemáticos que indicassem a ação de algoritmos para dirigir a apuração para a vitória de Dilma, analisando o crescimento de votos de Dilma e Aécio a cada parcial. “Aqui eu encontrei o padrão que que procurava”, diz o suposto técnico a Greice Naomi, no vídeo veiculado em 2018, indicando a suposta alternância entre Aécio e Dilma a partir de dado momento da apuração. “Isso aqui não é o resultado de uma eleição natural, onde se abrem urnas de vários pontos do país. Você tem minuto a minuto uma variação imprevisível, e aqui é totalmente previsível. Eu concluo que somente uma fórmula matemática poderia produzir esse minuto a minuto que enxergamos em 2014”.

Foi dai que surgiu a confusa afirmação de Bolsonaro no cercadinho do Alvorada, em 9 de julho, de que Dilma e Aécio se intercalaram na liderança 241 vezes seguidas (o presidente falou, erroneamente, em 271 casos). O tal técnico sustenta que essa sucessão de eventos seria matematicamente impossível de acontecer de forma aleatória, graças a um conceito estatístico chamado de Lei de Bendford. A tese foi bastante disseminada entre defensores do voto impresso depois das eleições de 2014, mas é consensual na academia que o controverso conceito estatístico não pode ser aplicado em análises eleitorais.

Com informações da reportagem de Johanns Eller no Globo.

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