Najila, que acusou Neymar de estupro: “Fui enganada por pessoas que só se aproveitaram da situação”

Najila Trindade em cena do clipe “Fogo Cruzado”, de Zula, em que contracenou com o então namorado Estivens
Imagem: Reprodução

Os jornalistas Felipe Pereira e Ricardo Perrone entrevistaram Najila Trindade no UOL. A conversa foi intermediada por Cosme Araújo Santos, o atual advogado dela.

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UOL Esporte: Como está sua rotina?

Najila Trindade: Estou me recuperando fisicamente, mentalmente e psicologicamente. Resolvi me afastar com meu filho, assim me recupero e privo-o dessa situação terrível que está me matando.

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Você ainda está muito abalada?

Tem como não ficar? Eu fui conhecer alguém que queria chegar perto e isto acabou em tragédia, expectativas totalmente frustradas. Depois, fui enganada por pessoas que só quiseram se aproveitar da minha situação deplorável. Na sequência, fui exposta para o mundo inteiro na minha intimidade e tudo mais, salientando que quando “dei entrevista” ao Cabrini estava extremamente dopada. E eu, que já estava achando que estava recebendo apoio, houve um reverso e meu sofrimento aumentou. Após a entrevista pré-ordenada, a história foi totalmente distorcida de propósito, passando a ser divulgada na mídia como se eu fosse uma aproveitadora. Veja que até minha família foi vítima de acusações levianas e despropositadas.

E teve meu apartamento também que foi roubado, onde levaram todos meus pertences de valor, isto enquanto eu estava dopada, entraram e saíram de lá como se fosse casa de ninguém. Tiveram a ousadia de filmar e colocar tudo na internet. Meu filho não quis mais voltar ao apartamento porque ficou traumatizado.

Você está fazendo tratamento psicológico?

Estou me tratando, sim. Reclusa não por dever nada, mas para me recuperar, porque os danos foram grandes. Estou passando, sim, no psiquiatra. Ele tem me ajudado bastante, porque eu não estava conseguindo administrar tudo isso que aconteceu, porque veio tudo ao mesmo tempo. Muita coisa de uma só vez, comecei a sofrer dia 15 de maio e depois disso tudo desmoronou. Só passa na minha cabeça um furacão seguido de outro. Mas, hoje, estou melhor se comparado aos outros dias logo após o episódio macabro naquele hotel em Paris.

O que você achou das brincadeiras na internet de as pessoas te agradecendo pelo título brasileiro na Copa América?

Não vi muito sobre, porque não estou acessando a internet. Estou reclusa do meio social, provisoriamente, contudo, recebi de alguns amigos umas imagens, visualizei e pensei: “queria estar feliz e comemorando a Copa América com as pessoas que estão ao meu lado”, mas não foi possível, pois estava muito abalada. Embora cruelmente algumas pessoas desprovidas de sentimentos acham que quis dar golpe. Golpe baixo foi o que recebi. Mas vida que segue. Deus sabe de tudo.

O que você acha das declarações de seu ex-marido de que não houve estupro?

Como eu disse, não vejo nada na internet. Desde que tudo isso começou, fiquei fora do ar, literalmente. Mas hoje várias pessoas me enviaram o link da matéria sob o título: “Não houve estupro”, então eu acabei lendo.

Achei desnecessário e até mesmo me gerou um certo repúdio quando eu li que Estivens era “testemunha-chave”. Mas chave de quê? Eu realmente não sei o que está acontecendo com as leis ou com a aplicação das leis com igualdade. Seja para rico ou pobre.

Primeiro, Estivens não pode afirmar nada com total convicção por que ele não estava lá, portanto nada viu, nada sabe e nada prova. Deve ser levado em consideração que ele é meu ex e não sabe da minha vida, sequer sabia que eu ia viajar, o que já demonstra que da minha vida ele não tem conhecimento. Então, como pode ser testemunha-chave?

Quando você tratou do estupro com seu ex-marido? Ele diz que foi por telefone no dia seguinte a seu encontro com Neymar.

Falamos, sim, ao telefone porque eu liguei para falar com meu filho, e acabei contando meio que por cima e envergonhada a aflição que eu estava passando, e ele não demonstrou compaixão e tão pouco interesse em saber. Por perceber frieza e descaso da parte dele, resolvi então cessar o assunto.

Vejo que hoje ele está se interessando mais pelo assunto do que na época. Por qual motivo? Por que não relatou sobre ter visto a outra parte do vídeo? Por que só agora? Não é muito estranho?

Depois que toda essa tragédia veio a público, percebo com clareza que a forma com que ela está sendo conduzida me dá mais certeza de que precisamos falar urgente da cultura do estupro e do machismo.

Por outro lado, como acreditar no Estivens que é uma pessoa que têm ficha na polícia por agressões a mulheres em dois relacionamentos? Ele pode ter mais credibilidade e voz do que a vítima agredida e violentada sexualmente? Ainda falando sobre o tal ex. Ele não é meu porta-voz, até pelo desenlace amoroso.

Agradando ou não quem não acredita em mim, lutarei em defesa das mulheres e não contra elas. O senhor Estivens tem parcela de culpa dessa minha ira contra os homens que maltratam mulheres, e ele sabe muito bem o porquê…

Você não pretende desistir?

Estou sofrendo retaliações, porque as pessoas ainda não entenderam o que de fato aconteceu. Cada um analisa o caso ao bel prazer, quando não é com fanatismo, e por conta do futebol.

Registro ainda que, como fiquei muito fragilizada, sem energia e dopada demais, não pude dar continuidade na minha luta. Foi aí que entraram pessoas que não entendem ao certo o que está acontecendo, mas visando um momento oportuno, para notoriedade ou mesmo levar vantagem de qualquer forma, e isto tem dificultado o bom andamento de uma situação, que, se fosse envolvendo uma pessoa diferente, tudo teria sido mais simples.

Você se considera traída por quem se aproximou de você?

Desde que tudo isso aconteceu, ninguém se aproximou de mim com o intuito de me ajudar. A forma com que as coisas estão hoje mostra claramente isso. A todo tempo eu peço por justiça somente. Justiça.

Sinto que se aproveitaram do meu desespero, do meu trauma e desorientação. O que me preocupa ainda mais como esse caso é tratado aqui no Brasil. De forma ignorante e desumana.

Não tive apoio em nenhum momento, só porque se trata de uma celebridade com poder aquisitivo e econômico, circunstância esta que está me sufocando, e que posso afirmar, deve ser o mesmo grito de socorro sem eco da mulher que está sendo violentada agora, ou daqui há alguns minutos.

Desculpe, mas o que um homem sabe a respeito das lutas de uma mulher? Crio meu filho sozinha. Saí de um relacionamento extremamente abusivo, no qual o agressor tem ficha de agressão a um relacionamento anterior, e nega que agrediu em ambos os relacionamentos.

Pega o filho uma vez no mês para passar a tarde no parque e não ajuda com pensão alimentícia há mais de dois anos. Então, o que eu tenho a dizer é que essa pessoa [Estivens], não me representa porque essa pessoa nunca me respeitou como mulher e não sabe nada sobre minhas lutas diárias.

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Pedro Zambarda de Araujo

Escritor, jornalista e blogueiro. Autor dos projetos Drops de Jogos e Geração Gamer, que cobrem jogos digitais feitos no Brasil e globalmente. Teve passagem pelo site da revista Exame e pelo site TechTudo.

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