Ministra Damares inspira caça a bruxas e seres mágicos na literatura infantil, diz Folha

Damares Alves. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Reportagem de Maurício Meireles na Folha de S.Paulo informa que, em um vídeo que circula amplamente na internet, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, faz um discurso inflamado contra diversos livros infantis. Um deles é o “Manual Prático de Bruxaria”, de Malcom Bird. “Isso é livro para dar para crianças, irmãos? Ensina como ser bruxa, como se vestir como bruxa”, diz ela a uma congregação, emendando em uma ironia. “Só tem uma explicação para esse livro estar nas escolas de São Paulo: o governador não conseguiu resolver o problema de trânsito, então está ensinando a fazer vassoura de bruxa”. Há outras obras infantis sob a mira da ministra e de grupos conservadores. Boa parte trata de sexualidade —a chamada “ideologia de gênero”— ou temas tabus. Mas o vídeo explicita uma vertente particular dessa caça aos livros infantojuvenis alegadamente impróprios que tem se tornado comum —a rejeição a alguns seres mágicos. Estão sob mira tanto aqueles vindos do folclore europeu, como bruxas, fadas e duendes, quanto do africano ou brasileiro.

De acordo com a publicação, o caso mais recente a repercutir no mercado editorial foi o da Leiturinha, maior clube de assinatura voltado a livros para crianças do Brasil —um edital publicado em fevereiro dizia que o clube não aceitaria inscrições de obras que tivessem “seres mágicos, como bruxas, fadas e duendes, como temática central na história”. Sob protestos, a empresa voltou atrás. Como tem um público abrangente e cresceu a ponto de hoje ter 150 mil assinantes, a Leiturinha começou a receber algumas reclamações de pais quanto a livros recebidos —alguns diziam que não queriam os filhos em contato com histórias de bruxas. Nesses casos, o clube precisou escolher outra obra e enviar para quem não tinha gostado. Procurado, o clube de assinaturas disse em nota que a intenção com o edital foi “evidenciar que os conteúdos de Leiturinha cumpririam o seu papel e contemplariam todas as famílias, respeitando a diversidade de crenças, valores e culturas dentro de nossas seleções”. O mercado livreiro comenta o assunto à boca pequena. O segmento educacional, tanto público quanto privado, é um dos principais a ajudar a fechar as contas das editoras, e ninguém quer sofrer boicotes de escolas. Mas relatos dizem que, se sempre houve episódios em que seres mágicos eram apontados como satânicos, antes havia mais constrangimento de pais e professores em acusá-los —nos últimos anos, contudo, essa rejeição está mais explícita.

A Companhia das Letras tem recebido reclamações de livros sobre bruxas, em especial de colégios confessionais, mas também de alguns laicos. Já teve um livro sobre a mula sem cabeça, figura que vez ou outra causa reações, recusado por uma escola —na lenda, ela é uma mulher transformada na terrível criatura por ter ido para a cama com um padre. A editora não quis comentar o assunto. Recentemente, Silvana Salerno, autora da casa, recebeu pelo Facebook uma mensagem de um pai indignado com “O Sol e a Lua”, história no livro “Viagem Pelo Brasil em 52 Histórias”. É um conto indígena recolhido pelos irmãos Villas-Boas, no qual uma onça se casa com uma mulher. O pai acusava a escritora de estimular sexo com animais. “Fiquei chocada. Nem me lembrava da história, fui procurar. E não fala em sexo. Apenas a onça se casa”, diz Salerno. “É um conto tão singelo. Nossos avós e bisavós não se importavam com isso”. ​Penélope Martins, escritora e contadora de histórias, tem um caso semelhante. Um de seus livros, “A Princesa de Coiatimbora”, tem um duende como antagonista. Chamada por uma escola metodista de São Paulo para contar a narrativa para as crianças, recebeu da coordenadora, antes de subir ao palco, o pedido para retirar o duende da história, completa a Folha.

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Pedro Zambarda de Araujo

Escritor, jornalista e blogueiro. Autor dos projetos Drops de Jogos e Geração Gamer, que cobrem jogos digitais feitos no Brasil e globalmente. Teve passagem pelo site da revista Exame e pelo site TechTudo. E-mail: [email protected]

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